<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218</id><updated>2011-10-09T04:15:56.140-07:00</updated><title type='text'>Deixem passar os elefantes</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>17</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-4683908101758059250</id><published>2011-07-09T03:26:00.000-07:00</published><updated>2011-07-19T02:59:55.078-07:00</updated><title type='text'>Niragongo</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/-sfOCPSmOF70/ThguhE-kYtI/AAAAAAAAAGQ/TXujelupjlY/s1600/Congo%2B100.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: left; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 214px; CURSOR: pointer" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5627298880206168786" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/-sfOCPSmOF70/ThguhE-kYtI/AAAAAAAAAGQ/TXujelupjlY/s320/Congo%2B100.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/--YBjP6YgaS0/Thgt9o0RsoI/AAAAAAAAAGI/YVzyYr-HzBc/s1600/Congo%2B063.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5627298271351386754" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/--YBjP6YgaS0/Thgt9o0RsoI/AAAAAAAAAGI/YVzyYr-HzBc/s320/Congo%2B063.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-M5wGV2NDKDM/ThgtckzIKAI/AAAAAAAAAGA/2kL_sLw0W_Y/s1600/Congo%2B008.jpg" onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5627297703337142274" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/-M5wGV2NDKDM/ThgtckzIKAI/AAAAAAAAAGA/2kL_sLw0W_Y/s320/Congo%2B008.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;&lt;b&gt;texto e fotos:manolo&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Sem deixar de olhar para a assistência, o pastor fechou com as duas mãos a Bíblia que estava sobre o leitoril e concluiu o sermão dizendo: «Deus seja louvado. Que Deus vos acompanhe. Em uníssono, e de forma melodiosa, a assistência respondeu: Ámen. Começou então a sair ordeiramente do velho barracão feito de tábuas de eucalipto e coberto por chapas onduladas, ferrugentas, transformado em lugar de culto. As crianças, vestindo roupas coloridas, aliviadas como o escape do vapor de uma panela de pressão, eufóricas, atropelam-se nas suas brincadeiras.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="line-height: 24px; "&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Um dos militares que se encontrava na última fila, cuja patente não consegui decifrar, sempre tive dificuldades em perceber as patentes militares, mas que me pareceu ser tenente e&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt; responsável pela brigada que nos acompanhará na escalada ao vulcão de Niragongo, disse-nos: «Agora já podemos ir e que Deus nos acompanhe!»&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Lá fora, em frente à porta, estende-se um cemitério que mais parece um campo de feijão verde, tenro e viçoso. Os crentes que regressam a casa atravessavam-no por pequenos trilhos pedestres, entre campas e vagens. Não se percebe se se trata de uma plantação de feijão verde com campas e túmulos, se de um cemitério ajardinado com estas leguminosas. É certamente bem diferente dos modelos mais ou menos estereotipados a que estamos habituados e, pelas traquinices das crianças e pela boa disposição dos adultos, de fato domingueiro e Bíblia na mão, vê-se que a sua relação com a morte é mais tranquila, mais lógica, pelo menos mais prática: há, de facto, uma relação mais utilitária com os entes queridos ali enterrados, qual inesperado adubo de hortícolas domésticos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;De um lado, encostado ao muro de pedras sobrepostas que delimita o cemitério, está um «out-door» de uma ONG com uma ilustração naif, a qual incentiva a população a não pactuar com os violadores, não os encobrindo nem os protegendo a troco de qualquer suborno. Trata-se de uma pesada herança da guerra civil que parece não ter fim; do outro lado, um segundo «out-door» mais cuidado publicita uma marca de cerveja com um curioso slogan: «negócio de homens!»&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Ali, no sopé do vulcão, espraia-se a cidade de Goma, que cresce à medida que os aldeãos das zonas rurais vão sendo escorraçados ou conseguem fugir dos grupos rebeldes que saqueiam as zonas rurais, regressando depois às montanhas onde se escondem e se constituem como autênticos exércitos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Alcançar o cume do Niragongo é a nossa missão. A minha mulher e eu queríamos muito fazê-lo, pelo que para isso treinámos caminhando diariamente cerca de 9 quilómetros, em andamento adequado e amena e descontraída cavaqueira como nos sugeriu a médica de família. Estávamos preparados para alcançar um dos vulcões mais activos do planeta, que se encontra a mais de três mil metros de altitude. Não que tenhamos alma de vulcanólogo ou nervos de alpinista, nada disso, mas a subida à cratera de um vulcão activo é sempre algo fascinante: chegar ao cume, encarar de frente o lago trovejante é, sem dúvida, uma forma de realização pessoal.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;A patrulha de militares, 9, juntou-se aos carregadores, 3, levando cada um, no minimo, 20 quilos; um deles, já com a sua carga sobre a cabeça ( garrafas de água, mantimentos, tenda...), ofereceu-se para me levar a mochila do material fotográfico. Amavelmente declinei a oferta.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Resolvidas algumas formalidades, segundo me apercebi de índole militar, o primeiro grupo de 4 Rangers embrenhou-se pela floresta dentro, por um trilho de pouca visibilidade e mato denso. O militar da frente levava um GPS Garmin Etrex na mão e todos transportavam metralhadoras Kalashnikov ao ombro. Cerca de um quarto de hora depois nós seguimo-los, igualmente a pé, com os restantes cinco militares e os três carregadores, por um trilho largo onde cabia um jipe; mas à medida que avançámos, cerca de 200 metros mais à frente este estreitou-se por entre a densa floresta. Seguíamos em fila indiana e o líder do grupo com uma catana ia cortando o matagal que teimava em esconder o trilho; seguia-se mais um militar, depois nós, a seguir os carregadores e, no final da lagartixa humana, os restantes militares.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Entre vários sons indecifráveis um silvo, um agitar brusco da vegetação, alguma apreensão e trocas de palavras, poucas, entre militares e carregadores; era perfeitamente perceptível o som do metal da catana a golpear os ramos e a nossa respiração cada vez mais ofegante. À medida que avançávamos, sempre a subir, o trilho tornava-se mais pétreo e enormes raízes atravessavam-no, escondidas pelo matagal, o que nos provocava pequenos desequilíbrios, pequenas quedas até, que mereciam algumas gargalhadas dos nossos protectores. Um dos carregadores desembainhou a sua catana e fez com ela duas varas de caminhar que nos ofereceu com um sorriso, o que melhorou a nossa caminhada. Descansávamos em zonas previstas pelos Rangers, e cada vez mais noutras a nosso pedido.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Depois de 4 horas e meio de caminho, numa das zonas previstas para o descanso, os carregadores colocaram a carga no chão e os militares sentaram-se no que geometricamente formava os cantos de um quadrado; nós, extenuados, sentámo-nos no seu interior. Eu fiz de um tronco tombado o meu assento e debrucei-me para beber água meditando ao mesmo tempo se me restariam forças para levar a cabo aquela ousada caminhada. Os militares trocavam entre si algumas palavras em tutsi, o seu dialecto, e eu, quase sem forças para levar a garrafa à boca, inferiorizado por não os compreender mas impressionado com a capacidade física daqueles homens, de mochila às costas, arma na mão e galochas de borracha, sorria.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Estava eu às voltas com os meus pensamentos, e com os apontamentos também, tentando esquecer-me das fortes dores nos joelhos, quando uma ensurdecedora rajada de metralhadora fez estrondo nos céus; num ápice uma ordem troante mandou-nos deitar de barriga para baixo. Seguiu-se uma segunda rajada, uma terceira, e logo mais duas ou três. A minha mulher prostrada à minha frente, eu, desesperado, rastejei até junto dela e apertei-lhe fortemente a mão como se a intensidade daquele aperto fosse por si só uma linguagem e ela percebesse tudo o que lhe queria dizer naquele momento. O seu olhar terno mas intenso tranquilizava-me, a minha “cara de Inverno”, como ternamente lhe chamo, acalentava-me ; e a sua mão apertada na minha, como nos hieróglifos egípcios em que a deusa concede o seu poder, a sua força e a sua coragem, a um súbdito, dava-me ânimo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Momentos mais tarde pairava um estranho silêncio e os militares e carregadores, já todos de pé, imóveis, músculos tensos, com alguns gestos reveladores de um certo nervosismo e um olhar fixo e circunspecto, olhavam para o céu como se dele esperassem um sinal divino. Um dos militares proferiu então algumas palavras, quase imperceptíveis, e o resto do grupo descontraiu-se. Um dos carregadores fez-nos um sinal com a cabeça, curto, afirmativo, de que tudo estava bem.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Poucos minutos depois, passadas as emoções daquele momento, prosseguimos e fomos ao encontro dos nossos companheiros que iam na frente, que tinham sido atacados por um pequeno grupo, provavelmente, de uma das forças rebeldes «Mai-Mai», escondidas nas montanhas do norte do Kivu. Empurrados pela fome, circundam as zonas protegidas à procura de comida. Nessa deambulação abatem todo o tipo de animais, inclusive os gorilas, para saciar a fome. Por vezes estes ataques não passam de uma medição de forças, para sentirem o pulso ao inimigo, mas nem sempre as coisas acabam bem.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Estes rebeldes oriundos, na sua maioria, do vizinho Ruanda reivindicam o que dizem ser os seus direitos através do pânico que espalham entre as populações com roubos, violações e assassinatos. Nos últimos dois anos mais de 150 destes Rangers foram assassinados nesta zona «quente» da República Democrática do Congo por estes grupos de rebeldes liderados por homens sem escrúpulos e sanguinários, para quem a democracia se mede pelo poderio militar, pelo terror e repressão.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Volvida hora e meia de caminhada avistámos o cume do vulcão Niragongo, mas alcançá-lo não se mostrava tarefa fácil. Havia uma «estrada» de lava solta com cerca de 300 metros até ao cume, mas com uma inclinação excessiva para as nossas capacidades físicas. Arrastámo-nos praticamente de gatas, com as pedras a fugirem por debaixo dos nossos corpos, o que nos obrigava a retroceder, a escorregar, contra a nossa vontade. Os carregadores passaram tranquilamente à nossa frente. Passámos por algumas fissuras que emitiam lava e, à medida que nos aproximávamos do cume, o ar tornava-se cada vez mais quente e o cheiro a enxofre mais intenso e sufocante. Quando, finalmente, lá conseguimos chegar já os carregadores tinham montado as tendas, inclusive a nossa, e nos esperavam com um sorriso triunfante. Abraçámo-nos todos!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;No centro, contido no interior de um cone vulcânico gigante em forma de uma tigela de sopa, podia desfrutar-se de uma visão deslumbrante e inesquecível: um lago de lava activa, a mais de 950ºC, rugia como um avião em descolagem ao mesmo tempo que explodia em repuxos fascinantes de tons de laranja eléctrico. O lago tinha vida! Bombeava, expandia-se, contraía-se, subia e descia, numa movimentação tão bela quanto aterradora. Ficámos tão hipnotizados que nem nos demos conta da chuva torrencial e do vento forte que nos fustigavam.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Durante a noite, em conversa com o tenente, o único que falava inglês, perguntei-lhe quanto ganhava para fazer aquele trabalho. Respondeu-me que 50 dólares mensais. Perplexo, repeti: 50 dólares?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;(No hotel banal onde me hospedara, na avenue de la Corniche, em Goma, eu pagava 75 dólares diários).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;Perante a minha perplexidade, o militar, meio atrapalhado, justificou-se: «Ganhamos mais porque corremos riscos!»&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: Arial; line-height: 24px; "&gt;(Estivemos na região em Outubro de 2010, desde então fomos informados pelos nossos contactos que dois destes militares que nos acompanharam ao Nirarongo haviam sucumbido num ataque de um grupo rebelde).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; LINE-HEIGHT: 150%" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="TEXT-ALIGN: justify; LINE-HEIGHT: 150%" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-4683908101758059250?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/4683908101758059250/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2011/07/niragongo.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/4683908101758059250'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/4683908101758059250'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2011/07/niragongo.html' title='Niragongo'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/-sfOCPSmOF70/ThguhE-kYtI/AAAAAAAAAGQ/TXujelupjlY/s72-c/Congo%2B100.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-4515670937044364564</id><published>2010-11-12T01:34:00.000-08:00</published><updated>2010-11-13T09:04:19.618-08:00</updated><title type='text'>Bazungu</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/TN1V23kJHyI/AAAAAAAAAE4/OhDcZBwjQ38/s1600/Congo%2B003.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5538677517852417826" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/TN1V23kJHyI/AAAAAAAAAE4/OhDcZBwjQ38/s320/Congo%2B003.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/TN0LfVBnCBI/AAAAAAAAAEw/y5AeofK80k0/s1600/Congo%2B403.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5538595749583325202" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/TN0LfVBnCBI/AAAAAAAAAEw/y5AeofK80k0/s320/Congo%2B403.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/TN0KxSHEKTI/AAAAAAAAAEo/SsJx3j4iHHY/s1600/Congo%2B001.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5538594958526916914" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/TN0KxSHEKTI/AAAAAAAAAEo/SsJx3j4iHHY/s320/Congo%2B001.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Texto e fotos: Manolo &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Local das fotos: Bukima e Goma. RD Congo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Entrei na palhota de telhado de colmo contornando um peixe seco pendurado, que me surgiu repentinamente na cara, qual espanta-espíritos.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O ancião estendeu a esteira de esparto, levou algum tempo a sentar-se nela, respirou fundo, sorriu, bateu com a mão firme no chão de terra seca que expeliu pequenos suspiros de pó e disse: «Bazungu (branco) senta-te aqui junto a mim». Acedi. Sentei-me na extremidade da esteira e uma fresta de luz que se escapulia pelos buracos da parede, feita de argila e de canas de bambu, resplandecia sobre a minha cara como um holofote numa tramóia teatral; mal via o meu interlocutor , que se encontrava na parte mais recôndita da cabana, numa penumbra quase impenetrável. Ao meu lado um recipiente de casca de abóbora seca estava repleto de vagens de feijão-verde. O silêncio estava imóvel.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Mandaste-me chamar? Conheces-me? Perguntei para quebrar aquele silêncio que, sem saber porquê, me angustiava. Receava que aquele homem à minha frente estivesse ali uma eternidade a olhar para mim sem nada dizer.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Conheço-te, és o único bazungu que anda a pé pelas ruas de Goma. Em Goma, o bazungu não se mistura com o mweusi (preto). O que é que procuras?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Sou um viajante.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Para viajar basta existir. Retorquiu o ancião, parafraseando Fernando Pessoa, o que me deixou mais perplexo. Ainda por cima, numa linguagem cuja semântica parecia uma mistura fina de português e de francês, com uma pitada de crioulo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Como te chamas? Perguntei.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-Henry Carhakubwa. Bazungu, sabes o que significa Carhakubwa? Limitei-me a dizer que não com a cabeça e o ancião continuou. Carhakubwa significa árvore flexível, que não cai com o vento, mas não é verdade. Estou como o milenar embondeiro que vai ser cortado para se fazer uma estrada nova.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Henry, que idade tens?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Muito tempo. Já passei por muitos tempos: tempo de fome, de colheitas, de perca, de ganho, de guerra, de sofrimento, de amor, de doença, de sol, de chuva, de doce e de amargo, demasiados tempos. Se eu te dissesse que tinha 110 anos respondias-me que era muito tempo, se eu te dissesse que tinha 70 anos respondias-me que ainda era novo. Vós, os bazungus, sois reféns do tempo. O tempo foi uma invenção da morte.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-Tens medo da morte? Desafiei-o.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Tenho medo é da mentira. Aos africanos é a quem mais se mente. Maltratados pelos próprios governantes, difamados pelas agências internacionais, iludidos pelas instituições de solidariedade, roubados na sua inocência pelos evangelizadores; até as organizações não-governamentais lhes dão falsas esperanças, o que ainda é pior. E de que forma reagem? Arrastam os pés, tentam emigrar, pedem, suplicam ou exigem dinheiro com a insolência de quem a ele tem direito, porque aqui, bazungu também é sinónimo de dinheiro; já reparaste que as crianças de manhã não te dizem «good-morning», dizem-te «good-money». Roubar a dignidade da pessoa é a melhor maneira de a manipular. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Os bazungu, aqui em Goma, deslocam-se de jipe de casa para o trabalho, depois para o restaurante, de novo para o trabalho, finalmente para casa. Andam num circuito fechado, têm medo, cheira-lhes a morte, mas convivem bem com a mentira. E tu? No meio dos pretos, nas ruas que fedem, nas encruzilhadas da sobrevivência, o que procuras?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Só conhecendo podemos aprender a respeitar as diferenças, respondi-lhe, e, sem o deixar ripostar, perguntei-lhe: como é que falas tão bem português?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Por um espaço de tempo (já não me atrevo a quantificar) o silêncio voltou a ficar imóvel. A noite caía sobre a aldeia de Bukima, a escuridão ganhava um tom avermelhado e no ar pairava o cheiro dos braseiros. Do meio da púrpura, Henry começou a falar.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Em 9 de Novembro de 1955 comecei a trabalhar nos Caminhos-de-ferro de Benguela, nos carregamentos de cobre que vinham do Katanga, era uma quarta-feira. Foi aí que conheci portugueses e comecei aprender...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- 9 de Novembro de 1955? Foi o dia em que eu nasci, que coincidência! Atalhei com os olhos esbugalhados.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Coincidência? Bazungu, não há coincidências. Existe um provérbio africano que diz: o estrangeiro só vê aquilo que sabe. Tudo na vida tem um significado, não podemos parar o destino nem o dominó das consequências. É tão certo como o tempo em que não chegamos à próxima Primavera. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A conversa ia longa e eu estava a mais de 2 horas de jipe de Goma. Despedi-me de Henry, dizendo-lhe que na manhã seguinte regressaria a Bukima para ir ao Virunga fotografar os gorilas e continuarmos a nossa conversa, talvez ele me revelasse porque me mandou chamar. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Amanhã? Bazungu, amanhã, já estarei a viver de outra maneira. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O regresso ao hotel foi de sobressalto, sentia a garganta seca. Durante a noite a imagem de Henry Carhakubwa queimava-me os olhos, a chuva torrencial alimentava-me o pesadelo. E como se fosse telepatia, ouvia a sua voz rouca, qual cantor de blues numa mistura fina de português e de francês com uma pitada de crioulo; lá estava, clara e cristalina como a água da montanha, dentro da minha cabeça. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;(- Amanhã? Bazungu, amanhã, já estarei a viver de outra maneira).&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;(- Não há coincidências...não podemos parar o dominó das consequências).&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Pouco passava das 5 horas da manhã, ainda o dia se espreguiçava, quando saí de Goma de regresso a Bukima; passei a enfadonha barreira de controlo, a seguir à estrada do aeroporto, deixei o trilho do vulcão Nyiragongo à esquerda e segui a pista de barro vermelho, passando por aldeias de palhotas com telhados de colmo e de chapa ondulada ferrugenta. Cruzei-me àquela hora com mulheres carregadas de bananas e de filhos às costas, cruzei-me com as «tchikudu» (as pesadas trotinetas de madeira, de tracção humana, que transportavam legumes e cana-de-açucar para o mercado de Goma), vi crianças em algazarra com uniforme escolar, camiões lotados onde as pessoas se misturam e confundem com os haveres, outros com capacetes azuis. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Quando cheguei à palhota de Henry Carhakubwa havia várias mulheres em pranto. Um caixão envolto em tecido escarlate, com cornucópias era carregado por alguns jovens. Num dos lados do caixão, e em dialecto Tutsi, lia-se uma frase feita com caricas de Fanta, de Coca-Cola e de cerveja Primus. Lacrimejando e com a garganta seca, perguntei a um dos jovens o que queria dizer aquela frase. Em francês, respondeu-me:&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;strong&gt;«Em África, quando um velho morre é uma biblioteca que arde.»&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-4515670937044364564?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/4515670937044364564/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2010/11/bazungu.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/4515670937044364564'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/4515670937044364564'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2010/11/bazungu.html' title='Bazungu'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/TN1V23kJHyI/AAAAAAAAAE4/OhDcZBwjQ38/s72-c/Congo%2B003.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-7902479268149436718</id><published>2010-10-15T02:56:00.000-07:00</published><updated>2010-12-16T01:59:52.949-08:00</updated><title type='text'>Você não é de cá, pois não?</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/TLgnuQ-NEYI/AAAAAAAAAEg/5gO-LKL4UIo/s1600/vodka.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5528212218380620162" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/TLgnuQ-NEYI/AAAAAAAAAEg/5gO-LKL4UIo/s320/vodka.jpg" /&gt;&lt;/a&gt; Texto e foto: Manolo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Budem zdorovi !&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Na zdorovie!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Os russos, divididos em tribos espalhadas pelas mesas, bridam extasiados à saúde, ao sucesso, à riqueza e ao futuro. Na minha mesa, ao centro, a garrafa de vodka parece uma bola de cristal a adivinhar-me um um futuro incerto, numa viagem vertiginosa sem cinto de segurança nem seguro.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A multidão eufórica entoa um hino de sonoridades agudas, sibilante, estridente.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Vai mais un copo? Só mais um! À saúde!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- À saúde de quê, de quem?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-Vai! Só mais um não faz mal, não és homem não és nada. Verdade tão irrefutável como a eficácia de um elixir para fazer crescer o cabelo. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Enquanto esta frase batida ressoa na minha cabeça, qual rajada de metralhadora nas paredes vazias de um convento, sinto os meus olhos como que a serem vomitados violentamente das órbitas. É hora de fugir. Pássaros negros rodopiam pelo salão chilreando estranhas cantilenas, as pessoas dançam de pernas para o ar, os copos grunhem como porcos, a entrada do salão aproxima-se e afasta-se num movimento brutal. «Pára, eu quero sair daqui!»&lt;/div&gt;&lt;div&gt;As bacantes tocam pandeiretas e a entrada do salão contorce-se como na dança do ventre. O meu ângulo de visão rende-se aos 45 graus alcoólicos daquela poção druídica, da qual já nada resta na bola de cristal, abandonada no centro da mesa, a sorrir para mim em tom desafiante: «Queres conhecer a minha irmã?»&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Os degraus surgem de repente à minha frente como que vindos do nada, sabe-se lá porquê, uma infantaria medonha que apoia milhares de pás eólicas, qual força aérea que me quer decapitar, talvez, uma encomenda expressa de Éolo, o deus do vento, que me refresca a cara mas não evita que eu vá ao tapete na gélida neve. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;As casas de Gromovo voam acrobaticamente e com a esteira de fumo que sai das suas chaminés, desenham estranhos sinais no céu, tão estranhos que não os consigo descodificar. A neve queima-me a face e o vapor gélido da noite acalenta-me a dormência, num vai e vem de vómitos ao encontro da deusa da raiva.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Quero gritar de fúria mas não consigo...mas o que eu quero mesmo é regressar ao passado, a St. Petersburgo, onde estive ontem bem quentinho na livraria Boukvoed, na avenida Nevsky Propekt, junto ao palácio de Inverno, perdido horas a fio num oceano de livros, a acariciar-lhe as lombadas, a beijar os títulos...mas não, estou aqui deitado na neve sem me conseguir levantar, qual manta velha enrolada, abandonada, num caos de refegos e volutas, massacrado por pesadelos.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A deusa ri-se de mim enquanto os meus orgãos, em sincronia, definham dentro de mim, Sinto-o.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A noite de repente fica silenciosa. Um grupo de mulheres, das cidades de Saratov e Volgograd, vem na minha direcção. Mulheres lindas, sedutoras cujos rostos alimentam o querer, o desejo, o impulso vital. O que verão em mim com os lábios e os dedos azuis e o gelo a consumir-me a roupa e a pele? O que quererão de mim? Mas é algo insubstancial, as belas mulheres das margens do Volga trespassam-me como um lençol de névoa densa, com se de uma ilha no meio do mar se tratasse, como o bêbado da minha rua -a da Esperança - deitado à chuva, rodeado de água por todos os lados, com o corpo cansado de pescador meio coberto de lixo da enxurrada e o seu fiel amigo, o «Bateira» a fazer jus ao epíteto de «fiel amigo», junto dele, como um farol, faça vento, chuva ou sol.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A minha rua - a da Esperança - também conhecida por rua do endireita, da casa dos caracóis, do Convento das Bernardas, do Chafarix, do José Saramago, viveu no 76 e eu no 28, ou do «Picaroço» o bêbado da minha rua. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Agonio exausto, mergulhado numa noite insegura. É fogo, queima-me, desfigura-me, é a desculpa do mundo ser tão feio, sem esperança, sem rua, sem cão. Será que Saramago se inspirou alguma vez no «Picaroço» para construir as suas personagens? Tantas as vezes o encontrou, aliás, tantas pessoas passaram por ele sem que ele desse por elas, qual ilha absorta, tal como eu agora, rodeado de cristais de neve cujos enfadonhos admiradores do belo defendem que em cada cristal, em cada floco, há a assinatura de deus. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Eu ali prostrado, mergulhado no meu próprio vómito.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;As casas de Gromovo aterram, umas atrás das outras, com a cadência dos aviões no aeroporto de Frankfurt. À medida que a minha torre de controlo cardíaca desfalece as familias saem das casas, avós, pais, crianças, todos ao meu redor. Só vejo pernas...mal as vejo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Só pode ser o céu. O inferno não é assim. Afinal o céu existe e é branco. É claro que estou no céu, no departamento celestial do Delirium Tremens, o forte odor a substâncias psicoativas, a luz, tudo leva a crer que sim. Um homem vestido de branco, as imagens e as formas destorcidas regressam à minha mente, à minha frente, vejo-o perfeitamente, cabelo de ouro, olhos azul safira, penetrantes, cruéis, parecendo julgar-me pelo meu rubor facial, pela minha ataxia e insufciência respiratóra. Fala de forma imperceptível mostrando-me os dentes de ouro.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;É o druida! Este filho da puta não pára de me perseguir, está visto que este céu é dele e insiste na poção, agora adminsitra-me vodka nas veias, por via intravenosa o efeito é mais rápido, já não chega o que passei lá em baixo, maldito sejas!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Você não é de cá, pois não? Ontem à noite esteve muito mal... dizia-me o homem de branco enquanto...enquanto ajustava o doseador da garrafa de soro. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-7902479268149436718?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/7902479268149436718/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2010/10/voce-nao-e-de-ca-pois-nao.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/7902479268149436718'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/7902479268149436718'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2010/10/voce-nao-e-de-ca-pois-nao.html' title='Você não é de cá, pois não?'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/TLgnuQ-NEYI/AAAAAAAAAEg/5gO-LKL4UIo/s72-c/vodka.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-7083193062912316649</id><published>2010-04-13T10:48:00.000-07:00</published><updated>2010-04-29T00:33:42.622-07:00</updated><title type='text'>Crime em Barcelona</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/S8WEpqvB64I/AAAAAAAAAC4/vBvvGPl7jek/s1600/Alimentaria+Barcelona+2010+092.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 214px; height: 320px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/S8WEpqvB64I/AAAAAAAAAC4/vBvvGPl7jek/s320/Alimentaria+Barcelona+2010+092.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5459915974637644674" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Texto e foto: Manolo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo parece perdido. As ruelas deixaram-se ficar por ali. Pararam.O bairro La Ribera esconde-se no tempo. E as ruas, umas por detrás das outras, protegem-se e acariciam-se nos «rendez-vous» dos estreitos cruzamentos sombrios, misteriosos mas românticos. Na Carrer de Sant Francesc de Paula, o Palau de la Música Catalana ergue-se como uma catedral, Lluís Domènech i Montaner, o seu arquitecto, assim o idealizou: uma catedral para os amantes da música. O Palau hipnotiza o visitante e prende-o como devoto a contemplar o céu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sergi aproveita as réstias de sol de fim de tarde, feixes ténues de luz que se esquivam entre os telhados, autorizados pelo Palau para dois dedos de conversa com os seus botões, à volta de um carpaccio de salmão com molho de lima, no El Bitxo, na Verdaguer i callis, uma ruela que se subjuga com orgulho ao Palau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sergi é um jovem e promissor repórter, ambicioso, sempre à procura das notícias, compensando a verdura dos anos com a irreverência e a avidez com que as procura. Recruta os seus informadores no «bas-fond», na policia, nas hospedarias, nas «casas de passe», nos circuitos da droga, no submundo da vida. Solitário, o seu jovem aspecto é afectado por algumas fragilidades narcísicas, como uma acne acentuada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bebe o último trago de vinho quando o telemóvel toca e ouve do outro lado:« um tipo apareceu aqui na esquadra e confessou ter assassinado a mulher na Carrel del Pi, num prédio junto à tasca «La Pineda», o inspector Mejias já foi destacado para lá, saludos chico». Apressou-se a pagar e saiu em direcção ao local do crime.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Os abutres farejam a carne podre à distância», foi desta forma, e com um sorriso tipicamente chinês, que o inspector Mejias o cumprimentou.&lt;br /&gt;- Boa tarde também para si, inspector. Confirma-se o crime? Perguntou-lhe Sergi, indiferente ao comentário.&lt;br /&gt;- Quatro facadas no peito meu caro amigo, quatro. Respondeu-lhe o inspector.&lt;br /&gt;- Crime passional, portanto. O motivo qual foi? Ciumes? Uma traiçãozita?&lt;br /&gt;- O que é que lhe parece? Retorquiu-lhe o inspector.&lt;br /&gt;- O que é que o homem faz?&lt;br /&gt;- É sexólogo.&lt;br /&gt;- Sexólogo? E matou a mulher? Perguntou Sergi, muito admirado, enquanto rabiscava umas notas no Moleskine.&lt;br /&gt;- Bom furo, hein? Não é todos os dias que um sexólogo mata a mulher, está com sorte. Já estou a ver o titulo do seu artigo: «Sexólogo assassina mulher por ciumes», ironiza o inspector.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ciúme é o rastilho em 57% das agressões entre os casais, de acordo com uma pesquisa realizada por universitários de 40 países, começa por explicar Sergi. Enquanto o ouve, Mejias, sem desvanecer o sorriso, acende um cigarro. E Sergi continua: Na perspectiva psicanalítica de Freud, a explicação para os assassinatos pode dever-se às forças inconscientes que motivam o comportamento humano. Freud, baseado na sua experiência clínica, acreditava que a fonte de perturbações emocionais residia nas experiências traumáticas reprimidas nos primeiros anos de vida. Ele acreditava que a personalidade se forma nos primeiros anos de vida, quando as crianças lidam com os conflitos entre os impulsos biológicos congénitos ligados aos estimulos e às exigências da sociedade. Talvez o assassino seja vítima do complexo de Édipo...&lt;br /&gt;Alguém afirmou que «todos nós somos ciumentos em maior ou menor grau. A diferença está em como cada um encara este sentimento», rematou Sergi.&lt;br /&gt;Muito interessante, ripostou o inspector Mejias, encaminhando-se para a pequena multidão de vizinhos, comerciantes e transeuntes curiosos que se juntaram à porta do prédio.&lt;br /&gt;Sergi começou a indagar os vizinhos.« Não quero acreditar que o sr. Josep tenha assassinado a mulher, parecia ser um homem tão calmo», dizia a vizinha do 4º andar; a do 2º, por sua vez, assegurava que as discussões eram constantes:« ouvia-o a gritar muito alto, pobre senhora»;« eu não conhecia a senhora, nunca a vi, devia sofrer bastante, era sempre ele que fazia as compras», esclarecia a mulher de um comerciante; a viuva do andar do lado não conhecia a vítima, mas afirmava convictamente:« o homem era doido, várias vezes me assediou, acho que era professor de sexo...». Sergi sorria e tomava nota de tudo.« Meu querido, tens um sorriso muito bonito mas deves tratar dessa cara, faz uma máscara de leite e arroz cozido...», dava-lhe de conselho uma septuagenária. Outra, contrapunha:« o melhor é feijão pelado com leite de amêndoas, foi uma médica que mo disse». « Água oxigenada é que é, desinfecta tudo», rispotava com autoridade um policia.&lt;br /&gt;Sergi agradeceu os conselhos e afastou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É estranho, ninguém conhecia a vítima. Ela é loira ou morena? Perguntou a Mejias.&lt;br /&gt;- Isso é relevante? Perguntou o inspector.&lt;br /&gt;- Não, não...posso ver o corpo?&lt;br /&gt;- No 1º andar, meu caro.&lt;br /&gt;Sergi entrou no apartamente, apreensivo, Mejias seguia-o.&lt;br /&gt;- À esquerda, nessa sala à esquerda, orientava o inspector.&lt;br /&gt;Sergi entrou. Fixou o corpo durante alguns segundos, deixando-se cair de seguida num pequeno sofá de tecido, estarrecido, tolhido por uma mistura de sobressalto e de perturbação; ficou pasmado perante o olhar imutável da «boneca de silicone», morena, olhos verdes de vidro, lingerie branca, ali no chão, golpeada sem apelo nem agravo no peito, onde sobressaiam partes do esqueleto em aluminio.&lt;br /&gt;O inspector Mejias, de pé, encostado à ombreira da porta,com o seu sorriso tipicamente chinês,perguntou a Sergi que continuava imobilizado.&lt;br /&gt;- No tempo do «seu» Freud já havia material deste?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-7083193062912316649?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/7083193062912316649/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2010/04/crime-em-barcelona.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/7083193062912316649'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/7083193062912316649'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2010/04/crime-em-barcelona.html' title='Crime em Barcelona'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/S8WEpqvB64I/AAAAAAAAAC4/vBvvGPl7jek/s72-c/Alimentaria+Barcelona+2010+092.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-4765332010366948477</id><published>2010-02-07T02:50:00.000-08:00</published><updated>2010-09-30T06:50:18.293-07:00</updated><title type='text'>Nunca vi um lince</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/S28SDVpxTnI/AAAAAAAAACw/3iVK-5JYTHY/s1600-h/Lince+4.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 286px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/S28SDVpxTnI/AAAAAAAAACw/3iVK-5JYTHY/s320/Lince+4.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5435583123820727922" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;texto: manolo&lt;br /&gt;foto: caoazul.com&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta crónica, não pretendendo revestir-se de um carácter autobiográfico, retoma, no entanto, fragmentos da minha memória já longínqua. Se para uma narrativa de vida não me sinto neste momento preparado, não deixo de evocar os meus tempos de menino quando lia avidamente as apaixonantes aventuras de Tintin, em especial o «Tintin no Congo», ou, mais tarde, as proezas do corajoso capitão Blake e do sagaz professor Mortimer. Foram elas que me incutiram o gosto pela aventura, pela natureza e a vontade inabalável de conhecer o mundo. Haveria de ser o todo-o-terreno o veículo para a realização desses «sonhos-desejo», que se foram entranhando em mim, lentamente, envolvendo-me de tal modo que influenciaram determinantemente a minha personalidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois, já adulto, veio uma experiência épica com um Portaro de um amigo meu, apicultor, na Serra da Malcata, que me relatava as suas aventuras «no reino do lince» com um inexplicável brilhozinho nos olhos, já lá vão mais de trinta anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chovia copiosamente, o meu amigo Rui preocupado com as suas colmeias e eu em fotografar, quem sabe, com um bocado de sorte, um lince. Nunca vi nenhum. Só os tinha visto embalsamados, «empalhados», em adegas da região, por cima da lareira de um notável da edilidade local " é um troféu de caça são raros", na casa dos guarda-florestais, no café central, na prateleira mais alta onde as garrafas de licor Beirão e as de Macieira exibem a sua disciplina perfilada e orgulho nacional face à timidez solitária de uma Vat 69. Na mesma prateleira onde, ao centro, está a moldura com o emblema do Benfica trabalhada em pequenos fragmentos de vidro e a figura em barro do Zé Povinho a fazer o manguito do «Queres fiado, Toma!», ladeadas de andorinhas pretas de Barcelos «coladas» à parede, pintada de um verde brilhante: e eu sem saber que se pintavam paredes daquela cor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Você vai tirar retratos aos gatos? Devia era levar uma caçadeira, esses ladrões comem-nos os coelhos todos)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquela noite revestiu-se de elementos notoriamente fantásticos, encandeando uma série de episódios estranhos e perturbantes, um número quase cabalístico de ficções e realidades que se me entranhou como um vírus. O poeta Fernando Pessoa dizia: «primeiro estranha-se, depois entranha-se». Agustina Bessa Luís chamou-lhe uma espécie de «vício de alma».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chovia copiosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Você vai tirar retratos aos gatos? Com este vendaval? Tá bem tá)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Copiosamente. O melhor chefe de redacção que tive, o saudoso António Alçada Batista, «descompunha-me» quando utilizava esta forma obtusa de adjectivação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Você vai tirar retratos aos gatos? Chove a rodos, homem! Beba um bagacinho e fique aí, que hoje dá o Dallas. Zé, é hoje não é?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Zé, ao balcão, dizia que sim com a cabeça enquanto passava o pano pela pedra mármore preta, pingada de mágoas anónimas, euforias desconcertantes, ilusões e desilusões e outras bebidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguimos o conselho, mas não ficamos para ver o «JR» a preto e branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Aquele bicho é mesmo ruim)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já passava da meia-noite, serra adentro, o meu amigo explicava-me as potencialidades daquela segunda alavanca das mudanças, mais pequena, mais robusta, mais decisiva. O Portaro com caixa aberta de madeira conhecia os sítios mais recônditos da serra. Uma mãe javali escapava ao súbito luar dos faróis com um carreirinho de crias entre o matagal denso, quase impenetrável. A chuva intensificava-se e a Malcata vestia-se de breu, envolta em trevas, sombras frenéticas e sibilantes.&lt;br /&gt;No olhar do meu amigo apicultor a angústia de perder abelhas-mestras, abelhas-obreiras e zangões. «Uma colmeia tombada...no Inverno perdem-se muitas abelhas»...e, num ápice, à nossa frente, num grande palco, que cena: um raio sobe (sim, os raios sobem, não caem) fulminante sentencia o enorme carvalho que protege o apiário, rachando-o ao meio, um estrondo, uma luz intensa, apocalíptica, pedaços de árvore, fragmentos de vidro, pedaços de colmeia. Há olhos de felideos cintilantes por todo o lado, que nos miram espantados de todas as direcções, garrafas que tremem nas prateleiras, andorinhas que se tranformam em morcegos, rainhas, operárias e zangões jazem sob a lama e a chuva cada vez mais intensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Não te atrevas a escrever copiosamente)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assustado o Portaro foge para a direita, resvala e cai num buraco dissimulado por uma urze. às voltas na labuta para o tirar do buraco, o meu amigo lembra-se de que dias antes se tinha esquecido ali, nquele mesmo local, junto às colmeias, de uma corda, «era uma corda grossa de marinheiro, temos de a encontrar, é a única safa que temos», gritava-me o Rui. A sua voz chegava-me trémula e interrompida pela cadência alternada das pequenas quedas e das tentativas de reequilíbrio para resistir à enxurrada que levava tudo o que encontrava à frente.&lt;br /&gt;As buscas mostravam-se infrutíferas, desesperantes, os braços e os joelhos enterrados na lama, só já comunicava com o Rui, tal como as abelhas, através de toques, movimentos, sons e cheiros. Não nos ouvíamos. O cheiro a madeira queimada, os corpos molhados na enxurrada, sem forças, como as rainhas,operárias, zangões, quase como «linces empalhados»...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subitamente, um brisa gélida, angustiada, atinge-nos o peito como uma lança, acompanhada de um fedor sulfuroso. Uma luz ténue surge do carvalho jazendo em cinzas, e desta ergue-se um vulto, um rosto magro de mulher de pela branca, quase transparente, manto branco, sem pés, que se desloca como se flutuasse. E nós, de joelhos, siderados...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- É ela!&lt;br /&gt;- É ela quem, Rui? O que é que se passa aqui? Gritava eu, quase em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Ó diabo, você também viu a pequena? Tirou-lhe o retrato? Zé, estás ouvir isto?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Zé, ao balcão, dizia que não com a cabeça: " Não gosto de falar nisso. Tenho muito respeito por essas coisas"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vulto deslocou-se para junto de umas pedras e iniciou um movimento circular. Tal como quando uma abelha quer informar as suas companheiras de colmeia que encontrou uma fonte rica em néctar ou pólen, inicia uma dança circular sobre a descoberta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Rui gatinha desesperamente na sua direcção, e à medida que se aproxima das pedras o vulto recua e esvaece-se até desaparecer por completo. O Rui tropeça na corda de marinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Encontrámos a corda, foi ela!&lt;br /&gt;- Rui explica-me isto. Quem é ela?&lt;br /&gt;- Não sei, já ouvi falar qualquer coisa...parece que foi morta por um raio, não sei, vamo-nos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Ó diabo, você também viu a pequena?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perante a minha incredulidade, o meu amigo Rui prendia um pequeno tronco à roda da frente com a corda de marinheiro e, de cada vez que o Portaro progredia meia roda, desatava e tornava atar o tronco. Chegámos a casa já raiava o dia, o Portaro ficou a dormir no alpendre e nós, ficamos a contar um ao outro o que já sabiamos mas, nunca vi um lince.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-4765332010366948477?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/4765332010366948477/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2010/02/nunca-vi-um-lince.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/4765332010366948477'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/4765332010366948477'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2010/02/nunca-vi-um-lince.html' title='Nunca vi um lince'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/S28SDVpxTnI/AAAAAAAAACw/3iVK-5JYTHY/s72-c/Lince+4.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-2907491158317566955</id><published>2009-11-13T00:58:00.000-08:00</published><updated>2009-11-17T10:22:48.632-08:00</updated><title type='text'>O Desertor</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/Sv0-Jg_nwnI/AAAAAAAAACQ/ggBHLyEKbDk/s1600-h/foto+de+Jorge+Soares.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 240px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5403543461110989426" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/Sv0-Jg_nwnI/AAAAAAAAACQ/ggBHLyEKbDk/s320/foto+de+Jorge+Soares.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Texto: Manolo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Foto: Jorge Soares&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A chuva cai miudinha. As luzes de natal das Galerias Lafayette Haussmann parecem convencer-nos de que vivemos no melhor dos mundos. O meu, infelizmente, desmoronou-se.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A «Chemin», a minha eventual editora, não aceitou publicar o romance que andei a escrever durante o último ano e meio. Francine, a minha namorada, acabou a relação comigo - por telemóvel - porque no último ano e meio não lhe dei a atenção que ela achava que merecia. Concordei.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Esta manhã não participei na habitual reunião semanal dos quadros da empresa e entreguei a minha carta com o pedido de demissão ao próprio presidente. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Nessa carta, eu referia que depois de quase 25 anos de total dedicação ao jornal, e à empresa, onde, todas as semanas, na habitual reunião ele pôde constatar o empenho e o entusiasmo que dediquei à redacção, quase 24 horas por dia, participando em projectos, ideias, entrevistas, investigações, inovações, tanta coisa...,tanta coisa que me fez passar ao lado de outras tantas igualmente importantes, como o amor, a familia, os amigos...e, porque não, eu próprio. Fui, como o presidente tantas vezes disse, uma «máquina», consciente e produtiva, de entrega total a este jornal.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Hoje, na habitual reunião semanal, o presidente deu pela minha ausência, pelo meu silêncio. É verdade, não estou doente, não ando em reportagem, não faltei. Desertei!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Os meus amigos desaconcelharam-me; a minha ex-mulher diz que eu sou um irresponsável sem consideração pelo ordenado que tenho; os meus vizinhos, perante o quadro de desemprego, julgam-me severamente. Pode ser que todos tenham razão, mas eu quero desertar, preciso de o fazer!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Na reunião de hoje, pela primeira vez em tantos anos, estarei ausente, melhor, estarei presente, mas de forma diferente: «estarei» naquela cadeira vazia onde nem uma bomba interromperá o meu silêncio. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ainda não sei para onde vou, mas para onde for quero ver a terra a namorar com a lua; o sol a correr no astro até cair de cansaço ao final do dia, tocar nas estrelas como o dedo, uma a uma; quero ouvir o resfolegar dos cavalos, o bafo do vento a lamber-me a cara; quero tornar-me um ser improdutivo cujo espírito errante pára no detalhe impensável.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Para os que ficam, especialmente para o presidente, desejo que continue a seguir atentamente a bolsa, as audiências, as vendas, a verificar a cada dia os mapas e as curvas de crescimento.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Mais tarde, bastante mais tarde, a sua fortuna será incomparável, a minha será outra. De qualquer maneira, no destino final que a todos nos está reservado, a seis palmos e meio abaixo da terra, nem a sua nem a minha nos servirão para nada.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Enquanto as luzes de natal das Galerias Lafayette Haussman insistem em nos alimentar a esperança, a minha esfuma-se entre as pessoas que, de um lado para o outro, com a ancestral estratégia da formiga, e numa movimentação que parece ter sido ensaiada até à exaustão, parecem felizes transportando pacotes e sacos, presentes para os outros e para si próprios. As crianças fogem do pai natal, os vendedores de castanhas assadas perfumam as ruas e prometem aconchego. Os amantes, parados, olhos nos olhos, despedem-se em silêncio e escondem a mágoa da separação com as abas dos guarda-chuvas. O Natal não propicia as relações proibidas, proíbe os encontros, é uma época em que o pensamento, como uma velha engrenagem, mói e remói a vontade reprimida, a lembrança dos bons momentos. É o regresso à realidade, à familia, às contas para pagar, aos presentes hipócritas, à falta de carinho quando ele é preciso e não pode ser partilhado. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Continua a chover, agora com mais intensidade, e dói-me a cabeça. Entro na farmácia da L'Opera Mogador, compro um pacote de aspirinas e engulo duas a seco, dirijo-me de seguida para a livraria L'Astrolabe, de livros de viagens, que fica ali perto, na rua de Provence, para dar um abraço de despedida ao Remy.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Então vais-te embora assim? Sem mais nem menos?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- O que fico cá a fazer?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- E a Francine? Fiquei calado.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Porquê para a República Centro-Africana?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Sei lá. África é como um alvo e quero acertar bem no meio...talvez me junte ao Comité Internacional da Cruz Vermelha, que acompanha a situação humanitária, é uma ideia. Sabes que a República Centro-Africana é um dos países africanos com maiores índices de mortalidade até aos cinco anos e nas mulheres? Estima-se que em cada semana morram perto de 420 crianças nos confrontos entre as forças governamentais e os grupos rebeldes. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Merda de mundo. Não há nada que eu possa fazer para...?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Podes. Arranja-me um bom mapa da RCA.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Quando partes? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Amanhã. Tenho voo directo da Air-France para Bangui.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Remy beijou-me, abraçou-me e sussurrou-me ao ouvido: - és o tipo mais teimoso que conheço. Ao mesmo tempo batia-me com o mapa na nuca enquanto tentávamos disfarçar as lágrimas.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Quatro dias depois.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A pancada violenta com a bota na região lombar fez-me entrar naquele calaboiço assustador de forma pouco formal. O telemóvel caiu-me do bolso e, quando me estiquei para o apanhar, a mesma bota esmagou-me a mão. O militar apanhou o telemóvel, sorriu e guardou-o no bolso da camisa. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;O calaboiço era pequeno, não tinha janela nem luz. Entre as frestas das tábuas que faziam de porta penetravam farrapos da claridade frouxa do crepúsculo, intermitentes devido às sombras provocadas pela movimentação dos militares que pareciam gritar uns com os outros.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Fomos condenados à morte.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A afirmação proveio de um dos cantos da divisão. Não me apercebi que havia ali mais alguém. O homem estava sentado, parecia jovem, cerca de 30 anos, e tinha uma ferida feia na testa resultante de uma coronhada.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-Quem és tu?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Sou um condenado à morte.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Porquê?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-Porque tenho um passaporte francês.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Vincent é francês, e vivia na Guiana francesa. Nos finais dos anos 80 esteve na República Centro-Africana para completar a sua tese sobre a doença do sono. Especializou-se nesta doença, também conhecida por tripanossomiase africana, e alguns anos mais tarde, regressou como especialista para estudar e para tentar novas descobertas sobre as três variedades de moscas tsé-tsé e sobre o papel destes insectos no transporte do parasita causador da doença (o Trypanosoma brucei).&lt;/div&gt;&lt;div&gt;No momento em que chegou sorridente, com o passaporte na mão, as autoridades tinham interceptado um importante carregamento de armas ilegais, de origem francesa, que teria como objectivo cair nas mãos de uma facção rebelde. Apanhado na confusão, o jovem médico foi interrogado e violentamente agredido, de que resultou um estado de afonia total. Como não conseguia falar, apenas chorar, foi considerado espião não colaborante e, consequentemente, condenado à morte.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Vincent percebia razoavelmente o dialecto sango, pelo que se pôde aperceber que lá fora decorria o meu julgamento. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-És jornalista?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Como sabes?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Entendo o que dizem...Estás aqui porquê? Perguntou-me com a voz trémula.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Sou jornalista sem patrão e um escritor sem editora. Escritor...tenho um romance na gaveta. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;- E de que tratava o teu romance?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Era a história de um casal de jovens em que ela acabava por se apaixonar pelo pai dele. Aí começava uma triangulação amorosa, perigosa, em que ela se dividia de forma manipuladora entre a paixão, o carinho, a ingenuidade do filho e a perversão do pai. Tudo isto condimentado com uma verdadeira guerrilha psicológica, episódios do dia-a-dia, reflexos do bem e do mal, álcool e drogas. Ela revelava-se manipuladora, sem escrúpulos e até devassa, como uma das piores vilãs do Antigo Testamento, a rainha Jezebel. Mais tarde, encontraram-na morta...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Enfim, uma história que não convenceu a minha editora.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;(o silêncio fez-se ouvir)&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Eles odeiam jornalistas...eles odeiam toda a gente. Desabafou Vincent batendo com a cabeça na parede. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Fui interceptado por uma patrulha, na bifurcação de Sibut, quando me dirigia para Kaga Bandoro, onde se encontra uma das 3 subdelegações do Comité Internacional da Cruz Vermelha. O militar que me interpelou só falava sango, tentei explicar que era voluntário da Cruz Vermelha , mostrei o logótipo, mas quando me revistaram e encontraram a minha carteira de jornalista, o militar não teve contemplações e tratou-me como se eu fosse um assassino. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Na sombra do conflito armado, desencadeado entre as forças rebeldes e o governo, milhares de civis foram mortos e estrupados, as casas e as lojas saqueadas. As acusações de crimes sexuais são detalhadas e substanciais. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A alvorada irrompeu com a algazarra dos militares, num caos feito de ordens, gritos, movimentações e gargalhadas que exalavam violência e ódio. Percebia-se pelo manuseamento, pelo respirar metálico das AK-47. O ferrolho da porta rolou, eu e o Vincent demos as mãos. Tremíamos. O primeiro militar a entrar no calaboiço, com um pontapé certeiro nas nossas mãos, desfez aquele enlace de medo e cumplicidade. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;De seguida, puseram-me fora do casebre de forma agressiva. Vincent continuou lá dentro. Ao tentar pôr-me de pé, deparei-me com aquilo que parecia ser um pelotão de fuzilamento. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;O militar que me roubou o telefone, me deu o pontapé nas costas e me esmagou a mão leu-me em voz alta, em dialecto sango, algo que eu não entendi mas que presumo ser a sentença. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Em menos de 24 horas houve julgamento, sem direito a defesa, e foi preferida a sentença. Aqui a (in)justiça é célere. Após a leitura do veredicto o pelotão assume uma postura mais formal, os soldados dispõem-se em posição de disparo e colocam-me na frente do pelotão, a cerca de dez metros. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Estou perante as famosas «Kalashnikov» AK-47, projectadas pelo general russo Mikhail Kalashnikov, a arma mais traficada no mundo. Pouco usuais em fuzilamentos. Mas em tempo de guerra não se limpam armas, não é verdade?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Onde estão as espingardas com uma só bala? Qual destes matadores receberia uma arma apenas com um bala falsa?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A coragem não existe. O medo é o verdadeiro motor dos actos heróicos. Mark Twain escreveu que a coragem é a resistência ao medo, o dominio do medo e não a sua ausência. Para mim, estar à frente de um pelotão de fuzilamento com serenidade, sim, estou muito calmo, não é um acto de coragem ou de heroísmo, é o reflexo do medo. O pavor relaxou-me. Recordo, nestes últimos instantes da minha vida, fuzilamentos famosos como o do poeta espanhol Federico Garcia Lorca, o do Imperador Maximiliano quando a monarquia foi derrubada no México, os «famosos» fuzilamentos de Goya. Mas porque não me lembrei disto? De escrever um romance que incluísse fuzilamentos, códigos, enigmas, chaves de ouro maciço que abrem portas inexistentes, sinais divinos, as pessoas iam gostar, a minha editora ia adorar...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O militar aproximou-se de mim e estendeu-me um maço de cigarros. O último desejo?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;(Mas tinha deixado de fumar, fazia-me mal)&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O militar dá uma ordem, o pelotão fica em sentido. Outra ordem, o pelotão aponta as armas, outra ordem...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Subitamente, o processo é interrompido pelo «Magic Time», de Van Morrison, do som polifónico do meu telemóvel que continua no bolso da camisa do militar que comanda as operações. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;O pelotão de atiradores soltou uma gargalhada em uníssono. O militar, irritado, dá uma ordem e o pelotão regressa à posição de «à vontade». Tira o telemóvel do bolso, estende-mo e desenha o sorriso mais cinico que vi nos meus 45 anos de vida. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Parabéns meu querido. é a Francine, estás a ouvir-me? Fui ter contigo ao jornal, disseram-me que te tinhas despedido; encontrei o Remy, disse-me que foste para África. Tenho tantas saudades tuas, não posso viver sem ti, regressa...fui uma parva...não podia deixar passar o dia do teu aniversário sem te dizer isto...e tenho uma prenda para ti: a editora escreveu-te uma carta, quer publicar o teu romance, imagina, ...diz qualquer coisa, por favor...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Bip...bip...bip...bip...bip&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-2907491158317566955?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/2907491158317566955/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/11/o-desertor.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/2907491158317566955'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/2907491158317566955'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/11/o-desertor.html' title='O Desertor'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/Sv0-Jg_nwnI/AAAAAAAAACQ/ggBHLyEKbDk/s72-c/foto+de+Jorge+Soares.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-7779034481833896764</id><published>2009-11-03T06:41:00.000-08:00</published><updated>2010-11-13T09:26:23.371-08:00</updated><title type='text'>O anjo do panamá</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/SvCVipSUUXI/AAAAAAAAACI/7GqEhdBoTMo/s1600-h/Amigos+da+Guin%C3%A9+006.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 214px; DISPLAY: block; HEIGHT: 320px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5399980375647998322" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/SvCVipSUUXI/AAAAAAAAACI/7GqEhdBoTMo/s320/Amigos+da+Guin%C3%A9+006.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/SvCUtG1bMXI/AAAAAAAAACA/qOWJyB2nqd8/s1600-h/Amigos+da+Guin%C3%A9+004.jpg"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5399979455866941810" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/SvCUtG1bMXI/AAAAAAAAACA/qOWJyB2nqd8/s320/Amigos+da+Guin%C3%A9+004.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Texto e fotos: Manolo&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Estava uma noite escura como breu e a viagem previa-se dificil, os quase cem quilómetros entre Rosso e Djama estavam praticamente intransitáveis, as águas do rio Senegal chegavam a atingir, por vezes, as partes mais altas da pista: uma verdadeira odisseia. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Era por volta das 21 horas quando o Land Rover Defender «130» atravessou a fronteira em Djama. O destino era a ilha de Saint-Louis, classificada como património mundial pela UNESCO, localizada no noroeste do Senegal, perto da foz do rio do mesmo nome e a 320 quilómetros a norte de Dakar, onde uma equipa de seis cientistas - dois espanhóis, um francês, um norueguês, um canadiano e uma portuguesa, Helena - iria desenvolver um trabalho de pesquisa no rio Senegal, em cooperação com o «Centre National de la Recherche Scientifique» do Senegal e com o patrocinio da União Europeia. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A equipa não quis jantar no Hotel de la Poste, praticamente vazio, foram todos para um restaurante francês muito simpático que havia nas imediações, com música ao vivo; a excepção foi Helena que, a pretexto de estar cansada, recusou amavelmente o convite do colega francês Gustave, apesar da insistência deste. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Helena preferiu a esplanada coberta do hotel, pediu um gin-tónico e ficou a ver a chuva a cair: os vendedores arrumavam precipitadamente o artesanato junto ao velho edificio da «Aeropostal», as pessoas corriam, havia um vaivém ininterrupto dos pequenos autocarros com gente aos magotes no interior e outros tantos pendurados, as crianças chapinhavam nas poças. Um véu de neblina caía sobre a ilha e, qual fria mortalha do esquecimento, envolvia os velhos edifícios de arquitectura colonial de meados do século XIX.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Não tinha fome nem sono, mas estava exausta. No céu nem sequer uma estrela luzia, um casal divinamente formoso que passava despertou-lhe atenção, trocaram sorrisos e persegui-os com o olhar até desaparecerem na esquina.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Helena é morena e usa o cabelo muito curto; um céu de sardas sobressai-lhe do rosto fino. Não sendo bonita, exala exostismo, sensualidade, elegância e charme. É uma mulher linda de se ver. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Apeteceu-lhe um cigarro, não que fumasse muito, mesmo assim...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;No momento em que o pôs na boca surgiu-lhe à frente um zippo dourado, que uma mão firme de homem, num gesto implacável, fez faiscar esfregando a roldana de metal rugoso na mola. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;-Obrigada&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-De nada. Francesa? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;-Não, sou...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-Posso fazer-lhe companhia? Dois gins-tónicos como muito limão, por favor, pediu ao empregado!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Helena, meio atordoada e confundida com a ousadia, gostou da surpresa. O homem que lhe acendeu o cigarro e a alma, cerca de 35 anos, sentou-se, tirou o panamá da cabeça e colocou-o sobre a mesa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Gosta da chuva?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Acenando afirmativamente com a cabeça, respondeu: - e adoro o cheiro da terra molhada.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- A chuva é o mar do céu - disse-lhe ele num tom doce enquanto batia o copo no dela.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Quando era pequena perguntava ao meu pai porque é que chovia e ele respondia-me que era para fazer a terra feliz.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Resposta sábia. Esse firmamento que tem no rosto herdou-o de seu pai?&lt;br /&gt;Helena concordou, corou, baixou os olhos, abriu a mão e com o dedo médio percorreu as formas suaves do panamá, como se percorresse o passado. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Como se chama?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Peço-lhe desculpa nem me apresentei, trate-me por Jean. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Eu sou Helena.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Helena, como a filha de Zeus? E o que faz?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Sou professora e você?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Sou...mercador, é isso mesmo, sou mercador. Ao mesmo tempo que esboçava um sorriso que já a tinha encantado. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Em que área?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Na área dos sonhos, da fantasia, negoceio com anjos e querubins e cruzo os céus da terra à procura das melhores utopias - concluiu com um dos seus belos sorrisos de cujo encanto tinha o segredo e que era, talvez, a mais clara explicação para o seu charme. Era bem constituido, mãos grandes, corte de cabelo «vintage hair» que lhe dava um ar misterioso, de sagaz aventureiro. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Já há muito tempo que não via um panamá tão bem feito. Suave, sem costuras, é um autêntico panamá. Foi numa das suas viagens que o encontrou? Já esteve no Equador?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;São feitos à mão no Equador. Sem costuras, suave ao tacto. Este é o mais clássico dos chapéus para a estação cálida - um mito da elegância.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Os panamás não se fazem no Panamá. E isto já diz muito sobre a história e a tradição centenária dos «sombreros» mais clássicos da estação estival. O Panamá foi durante um par de séculos um importante porto de embarque, mas na realidade os elegantes chapéus brancos, cujos destinatários eram os membros da alta burguesia europeia e norte-americana, fabricavam-se (e ainda se fabricam) no Equador, para além de um reduzidissimo número de países da América do Sul.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Fabricados...será mais correcto dizer criados. Porque os verdadeiros panamás são uma verdadeira obra de artesanato comparável a um tapete feito à mão, como o expressou muito bem Tom Wolf, o autor do livro &lt;em&gt;A Fogueira das Vaidades&lt;/em&gt;: «O prazer de tê-lo e de pô-lo compensa os sacrificios que os pobres passam em produzi-lo». &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Não é a única homenagem conformista ou politicamente correcta. Basta observar um pouco como se fazem. Obtidos a partir de uma espécie de folha de palmeira conhecida por «toquilla» (corta-se antes que alcance o metro e meio de altura), a manufactura de um panamá de luxo exige de um a dois meses de trabalho aos indigenas que o tecem, impecavelmente, sem costuras. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;As fibras das folhas demolham-se durante alguns dias, ficando a escorrer à sombra de cabanas para se escolherem as mais elásticas e subtis. A tecedura começa pelo topo e realiza-se numa peça única. É um exercício de mestria que remonta, provavelmente, à arte dos antigos «mayas» no fabrico dos seus magníficos tecidos vegetais. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Como é que percebe tanto de panamás? Perguntou Jean, estupefacto e totalmente fascinado com a eloquência da sua atraente interlocutora. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;- É um chapéu mítico e era o preferido do meu avô, tinha vários...verdadeiros, feitos à mão no Equador. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A conversa prolongou-se pelo jantar, na elegantíssima sala Mermoz, decorada com motivos do correio aéreo que voava de Toulouse ao Rio de Janeiro, com uma das escalas em Saint-Louis, e do seu piloto mais famoso: Jean Mermoz. A sala estava vazia e proporcionava uma tranquilidade celestial. Helena e Jean estavam absorvidos pela conversa, trocando de vez em quando gestos carinhosos que acrescentavam à intimidade do jantar: uma paixão recíproca. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A libido entre os dois é notória pelos sinais gestuais que confirmam, no vinho degustado com prazer e encanto, e identificado por Jean como o símbolo do requinte: - Beber vinho e amar são instantes de total entrega. Helena molhou os lábios no «Chateau Petrus», e beijou apaixonadamente Jean. Este pegou-lhe na mão e quando chegaram junto à escadaria estreita levou-a ao colo até ao quarto 219; não parecia um vulgar quarto de hotel, móveis, objectos pessoais, quadros e retratos, pareciam ter uma relação directa, muito íntima, com o hóspede. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Costuma ficar aqui muitas vezes?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Fico sempre aqui. Tem uma vista soberba sobre o rio e a praça. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Helena desviou o cortinado para ver; Jean, abraçando-a pela cintura, começou a beijar-lhe o pescoço...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;De manhã, Helena acordou com um dedo de sol a acariciar-lhe o rosto. O dia estava bonito e ela feliz. Os seus olhos brilhavam e o seu corpo, adoçado por uma noite de amor, parecia ter mais energia do que nunca. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;De repente, deu-se conta que estava sozinha. Não havia malas ou roupa espalhada, apenas móveis, objectos sem vida, sem memória. Objectos que só ganham brilho, quando há memória. Jean tinha partido, porquê?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Não chorou, mas os seus olhos ficaram tristes. Desceu, dirigiu-se à recepção e perguntou se o hóspede do quarto 219 já tinha saido?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- O recepcionista, admirado, balbuciou: - O hóspede do quarto 219? Esta noite não alugamos esse quarto...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Um senhor chamado Jean não consta da sua lista? Costuma ficar sempre no quarto 219, veja lá, por favor, deve conhecê-lo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Jean? Quem costumava ficar nesse quarto era Jean Mermoz, o famoso aviador, mas morreu em 1936 no meio do Atlântico e agora o quarto é uma espécie de museu, quer visitá-lo? Tenho muito prazer em...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Não se incomode, muito obrigado.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Helena sentou-se na sala Mermoz para tomar o pequeno almoço, fixou o olhar na imagem do piloto que lhe dá o nome, a qual, na noite passada não parecia estar ali naquela parede. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Gustave, o francês, aproximou-se:- Bom-dia, ontem quando viemos do restaurante ainda bati uma vez à porta do teu quarto, mas já devias estar a dormir...estavas tão cansada que dormistes como um anjo, não? &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Helena, sem deixar de olhar para a imagem de Jean Mermoz, respondeu muito baixinho: - Como um anjo não, com um anjo. &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-7779034481833896764?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/7779034481833896764/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/11/o-anjo-do-panama.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/7779034481833896764'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/7779034481833896764'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/11/o-anjo-do-panama.html' title='O anjo do panamá'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/SvCVipSUUXI/AAAAAAAAACI/7GqEhdBoTMo/s72-c/Amigos+da+Guin%C3%A9+006.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-1928833712808833667</id><published>2009-10-27T02:14:00.000-07:00</published><updated>2009-11-13T07:24:59.943-08:00</updated><title type='text'>A «Perfect Day»</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/SuoajIJOBGI/AAAAAAAAAB4/8SgiVz22ITw/s1600-h/gorilas.bmp"&gt;&lt;img style="TEXT-ALIGN: center; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 320px; DISPLAY: block; HEIGHT: 213px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5398156294140855394" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/SuoajIJOBGI/AAAAAAAAAB4/8SgiVz22ITw/s320/gorilas.bmp" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;Text: Manolo&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(Photo: Pablo Moreira. UNESCO)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Democratic Republic of the Congo. Since Goma, the stoic Galloper had been complaining of the «miserable life» it had been given. A rough life, no overhauls att all, no changing of filter, no rescrewing, well, without any kind service. Gauges didn't work; the suspension had long forgotten its function and the motor revealed an arrythmia as if its « sinus knot» couldn't stimulate the «heart». «It consumes some oil but it'ii manage», said the rent-a-car lad at the door of Hotel Lhusi while he poured the third litre of oil into the unfortunate Galloper. We guessed it would be a very bumpy ride until the bowels of the Virunga Mountains, where Emmanuel de Merode, the director of WildlifeDirect, was waiting for us, to guide us to the that superb gorilla world in Virunga National Park.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;The day before, we flew in a old Antonov from Kinshasa to Goma. At first, we had intended to cross Congolese territory by jeep, but my dear friend and work pal from Invicta - the familiar name of Porto - Rui Newmann, the PNN (Portuguese News Network) correspondent in Africa, used to risky settings, was very frank: «Never cross Uganda by land because of the nasty movement that calls itself - Lord's Resistance Army», winch isn't fond of white people. Don't even think about it».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;To attain the objective, there was "only" about 300 km ahead of us through the world's second largest tropical forest, excelled only by the Amazon region. However, I do not know why, I was worried and you...smiled.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Backpacks, the satellite phone, two packs of stale biscuits, three bottles of water, a blind trust on the GPS and some one dollar notes because there's always someone you need to bribe. Following the good tradition ordained by Mobutu « article 7 is valid for every Congolese, meaning...be resourceful!», this was our main equipment. After the legal and not so legal procedures, we penetrated the ex-Belgian Congo, and ex-Zaire forest. By late afternoon, we wanted to reach the first Virunga station, at the National Park, the first to be created back in 1925 and proclaimed World Heritage in 1979, and where gorillas are still being decimated at such an incredible rate thereby putting the species in danger of extinction.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Our eyes welled up with tears as they met a magnificence whose dazzling beauty overwhelmed us. Completely subdued by the spell of the tropical forest, we did not realize that the Galloper was beginning to die. We were roughly 85 km from our destination ehen I felt the motor seize up a bit and, right or wrong, I decided to stop and verify the oil level: completely dry. Nothing that I had not anticipated, but you were smiling and saying, everything would be all right. If the gauges had been working they would have complained a long time ago. With great strain, I moved forward only some metres to a small open area beside a track from where, in a valley 300 metres away, we could catch a glimpse of a waterfall whose waters sprang into a huge lake. There was nothing we could do. As if bewitched by luxuriant vegetation, we held hands and stolled like lovers in Central Park. The birds and the violent shudder of the leaves on the trees caused by the shaking of the more curious chimpanzees did not frighten you uneasy, and I felt your hand squeezing mine more tightly.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;We unsuccesfully tried to contact Emmanuel de Merode through the sattelite phone; the connection was terrible and there was no signal. I searched through the Galloper hoping to find a can of oil, even if it was only that bulk truck oil that the rent-a-car lad poured down the "throat" of the first generation Mitsubishi motor. Zero!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;It was very hot and we longed to dive into the waters of the lake but prudence is always a good advisor; it is suicidal to get into rivers and lakes of this country. Hippopotamus, for instance, are the animals that kill more people.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;We tried again to contact Emmanuel de Merode. «Are you late? Ary you lost?» After we had explained the incident and given him our coordinates, he burst into laughter: « No problem, we will pick you up and we shall tow the jeep away, if needed. Be careful, do not get too near the lakes and stay calm. We will be there in no time».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;The night was warm and on the ground threads of water flowed here and there gathering to form a minute and peculiar complex web that feeds brooks, rivers and lakes in a millenary ritual. We picked a dry spot and began preparing our supper. On huge green leaves we put the cookies and, as expected, I took care opening the water bottle with the same rite as if were the most exquisite Petrus wine. We shared the cookies with kisses and the atmosphere seemed soaked in overwhelming peace. Once in a while we heard howling screams and gorilla grunts, now sharp then gentle. Quiet, we stared at each other's eyes, and you would say: « it's remote», and you would kiss me. The perfume of the flowers, the leaves, the stems and bamboos soothed us. It was our love's perfume. Countless number of times we listened to Lou Reed's «Perfect Day», the only tune I had on my cellular; you came to dwell in my body. We were immersed within each other as we enjoyed the time we had together. We satiated our longing desire and, above our wet bodies, a firely candelabrum brigtened our passion, while «Perfect Day» echoed within the forest: «Oh it's such a perfect day / I'm glade I spent it with you / O such a perfect day / You just keep me hanging on...You just keep me hanging on...»&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Before daybreak, we where suddenly awakened by the roar of a powerful motor. Bewildered, we hid ourselves in the almost impenetrable forest and kept quiet in fear it might be a rebel group. A huge Deutz truck stopped near the Galloper and rejoicing, we saw Emmanuel de Merode, who stepped out and offered thousands of excuses. «We only managed to get hold of this truck during the nigth. Pleas forgive me thousands of times for leaving you here alone for such a long time in the hands of the forest threats. My God, are you frightened? Oh, my poor lady, ehat a shame...» While Nogbobo, the engineer, a Mubti tribe pygmy, dumped some more litres of oil into the infortunate Galloper, and Emmanuel de Merode once more offered thousands of excuses, we looked into each other's eyes, smiled and our lips silently spoke: «Perfect Day».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-1928833712808833667?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/1928833712808833667/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/perfect-day_27.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/1928833712808833667'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/1928833712808833667'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/perfect-day_27.html' title='A «Perfect Day»'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/SuoajIJOBGI/AAAAAAAAAB4/8SgiVz22ITw/s72-c/gorilas.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-1544040618010327986</id><published>2009-10-20T13:52:00.000-07:00</published><updated>2009-11-13T07:35:26.534-08:00</updated><title type='text'>«Mulheres,sabe como são as mulheres...»</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/St41EPBx6-I/AAAAAAAAABw/fJl72YnDHk0/s1600-h/Amigos+da+Guin%C3%A9+011.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; FLOAT: left; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5394807750506179554" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/St41EPBx6-I/AAAAAAAAABw/fJl72YnDHk0/s320/Amigos+da+Guin%C3%A9+011.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Num francês incompreensível misturado com crioulo, o homem discute ao telemóvel. Percebo que a conversa é sobre dinheiro e, quando se referem verbas, o homem exalta-se, gesticula, afasta o telemóvel da orelha, olha para ele e grita, irritadíssimo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Estou na fronteira de Wassadou, no Senegal. A divisão entre o Senegal, por uma pista de terra vermelha, lindíssima, com cerca de 4 quilómetros, e a fronteira guineense de Pirada é feita por uma corrente entre dois pequenos pilares de cimento e pela boa vontade deste homem. Quando se cala para ouvir o seu interlocutor - que parece ser uma mulher - o guarda fronteiriço fita-me de alto a baixo, com um olhar de poucos amigos, para logo virar costas e recomeçar a gritaria. Pressinto que não cheguei na melhor altura. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O Iveco Daily 4x4 está praticamente encostado à corrente que liga os dois pilares de cimento. Ao lado, o «escritório» do posto fronteiriço é composto por uma cobertura, duas cadeiras azuis de plástico, a secretária é um tronco de árvore cortada e, como «sala de espera» outro tronco, este maior e deitado, onde está sentado um jovem que observa o guarda de olhos arregalados. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Eu, ali especado com os passaportes e o famigerado «passe-avant» nas mãos, anseio pelo desfecho da discussão e, confesso, não sei o que se passa mas estou do lado dele. No meio da gritaria cada vez mais estridente, o guarda faz-me sinal para recuar o carro e, quase em simultâneo, para parar. Recuei talvez um metro e, agora, parece que estou cada vez mais longe. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Regresso à minha posição de assistente especado que presencia os arrufos do casal. O guarda está completamente fora de si, dá um pontapé numa lata velha de concentrado de tomate e esta não acerta no jovem que está sentado por um triz. As escleróticas dos seus olhos perdem a «brancura» amarelada e ficam vermelhas de raiva devido à dilatação dos vasos sanguíneos. Começo a ficar nervoso, pressinto que não cheguei na melhor altura. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O homem, que parece ter mais de cinquenta anos, é pouco formal no uniforme cor de areia, usa um chapéu de palha estilo colonial marcado pelo suor, amuletos coloridos ao pescoço, ostenta uma dentadura em ruínas e a sua ira exterioriza-se numa mistura estranha de brados e de catarro. Transforma cigarros em beatas à velocidade da luz, o suor escorre-lhe no rosto em cascata e, a ver pelo seu estado de fúria, o fluído é de muitas octanas. Não me atrevo a acalmá-lo. É um barril de pólvora na iminência de explodir. Agora anda às voltas numa espiral vertiginosa. O jovem levanta-se, e eu, especado e impávido, quiçá como a mulher de Ló transformada em estátua de sal às portas de Sodoma. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;De repente, o guarda afasta o telefone da orelha, olha para ele, junta-o à boca, arregala os olhos e, com os dentes cerrados, pronuncia algo imperceptível ao mesmo tempo que o arremessa violentamente; este não se desfaz no chão porque o jovem protagoniza a defesa da tarde.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Silêncio na fronteira, no céu e na terra. O guarda afasta-se uns metros, o jovem continua com os olhos arregalados mas com o telefone na mão, e eu, siderado, tenho a certeza que não cheguei na melhor altura. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O guarda passa um lenço amarrotado e encardido pela cara enquanto segue na direcção do «escritório» e, com um aceno de mão, manda-me aproximar e diz-me: - excusez-moi monsieur, les femmes, monsieur, les femmes...vous savez. Ao mesmo tempo cospe na almofada de carimbo e timbra com a força da sua autoridade os nosso passaportes. Retribuo-lhe o comentário: - é preciso ter calma, sabe com são as mulheres, não é?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Calma? Imagine que tenho 6 mulheres a quem sempre dei tudo, arroz, feijão, milho...e agora resolveram unir-se para me fazerem reivindicações, imagine o senhor.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Realmente não imagino, disse eu. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O guarda manda o jovem abrir a corrente e pergunta-me: - não se importa de levar este moço até ao outro lado (Guiné) ? Desejo-lhe uma boa viagem e uma óptima estadia. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Quando chegámos a Pirada, pergunto ao moço: -onde é que queres ficar? Num português incompreensível, misturado com crioulo, responde-me: - fico aqui, tenho aqui uma cabra.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Texto e foto:Manolo&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-1544040618010327986?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/1544040618010327986/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/mulheressabe-como-sao-as-mulheres.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/1544040618010327986'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/1544040618010327986'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/mulheressabe-como-sao-as-mulheres.html' title='«Mulheres,sabe como são as mulheres...»'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/St41EPBx6-I/AAAAAAAAABw/fJl72YnDHk0/s72-c/Amigos+da+Guin%C3%A9+011.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-6117907810110306441</id><published>2009-10-19T03:15:00.000-07:00</published><updated>2009-11-13T07:36:25.568-08:00</updated><title type='text'>O homenzinho da caixa de madeira</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StxDfrEj30I/AAAAAAAAABo/bgvVX3OaGmE/s1600-h/O+homenzinho+da+caixa+de+madeira.JPG"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; FLOAT: left; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5394260665099870018" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StxDfrEj30I/AAAAAAAAABo/bgvVX3OaGmE/s320/O+homenzinho+da+caixa+de+madeira.JPG" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;No pico da duna, deitado ao lado da minha inseparável companheira das noites de luar, a minha própria sombra, contemplava deslumbrado o céu de Msieb tatuado de estrelas cintilantes, vigiadas pro uma lua apaixonante.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Um homenzinho baixote, coberto do pescoço aos pés com a gandoura, de rosto seco e ossudo lembrando uma caveira, mas coberto de barbas , um olho vazio e dentes cavalares e amarelados, com uma caixa de madeira debaixo do braço aproximou-se e perguntou-me: - Gosta do meu deserto? Perplexo, respondi-lhe que sim, confirmando ao mesmo tempo com a cabeça. Então baixou-se, aproximou-se ainda mais de mim e pude sentir o impacto desagradável de uma forte halitose, valha-me deus, como se o fétido odor da morte se tratasse. Levantei-me de repente, ele, em bicos dos pés, arregalou o olho - a órbita vazia parecia a cratera de um vulcão em carne viva -, esboçou um sorriso cínico e sussurrou-me: - O deserto é a lâmpada mágica que liberta a alma. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Reconheci imeditamente o aforismo de Ibraim Al Koni e, antes de lhe perguntar quem era e o que fazia ali, num passo largo que agitava a gandoura, desapareceu para lá das dunas levando consigo a caixa de madeira debaixo do braço. Nunca mais o vi. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Moahmed, com o bule na mão e um copo na outra, deitava chá de menta de uma certa altura, alternadamente, de um lado para o outro. Repete o gesto diversas vezes e, perante a minha perplexidade, pergunta-me: - Há algum problema?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Não, respondi-lhe, estive ali a conversar com um homenzinho...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Com uma caixa de madeira debaixo do braço? Afaste-se dele! Esse desgraçado trás a morte com ele, mas nunca mais morre, tem mais de cem anos. Diz-se que foi o braço direito de Zaid Ouskounti, o último lider tribal a render-se aos franceses, em 1933. No dia em que foi feito prisioneiro cuspiu na cara de um sargento francês, este, raivoso, esvaziou-lhe o olho com a baioneta do fuzil. Desde então considerado um herói, jurou vingar-se...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- E como é que trás a morte consigo? Perguntei eu. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Não sei, se calhar é ele a própria morte, mas afaste-se dele, por Alá! Dizem que na caixa que trás debaixo do braço guarda sempre o coração «enfarinhado» em areia da sua última vítima. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Explicou Moahmed, olhando para todos os lados como se estivesse a ser observado pela...pelo homenzinho da caixa de madeira, enquanto repunha chá no velho púcaro azul de esmalte. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Confrontei-me então com a morte? Perguntei a mim próprio . Sempre pensei que a morte fosse mulher e tivesse como fiel companheira uma gadanha fria e silenciosa. Saramago, no seu livro «intermitências da morte» , descreve-a nestes termos: « uma senhora morte como se quer, capaz de fazer tremer o chão debaixo dos pés, com a mortalha a arrastar levantando fumo a cada passo». Esta sim, é uma morte elegante, com personalidade, não uma morte zarolha e mal cheirosa que me arrancava o coração e o «enfarinhava em areia» , para o guardar dentro de uma caixa de madeira. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Mas, tinha chegado a minha hora. Prisioneiro dos grilhões das trevas que me arrastavam para as profundezas, chegava o irrevogável e improrrogável fim da minha existência. Eu lutava, não queria: ténues tentativas frustradas de liberdade. Sentia frio, o corpo gelava e as pontas dos dedos estavam azuladas como o velho púcaro de esmalte. O bafo do homenzinho da caixa de madeira envenenava a minha existência. Estava escrito, e o que está escrito tem muita força, já não era só o fétido odor da morte, já sentia a própria baba da morte, o coração «enfarinhado», aquela luz branca, e gritei...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-Então pá, adomecestes nas dunas? Quando demos por ti estava um camelo a lamber-te a cara, ainda nos fartámos de rir, o João até tirou umas fotografias...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Estremunhado, olhei ao redor: toda a gente se ria, Moahmed parecia uma criança a rir-se enquanto me estendia um chá num velho púcaro de esmalte azul. &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Texto: Manolo &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Foto: Luís Almeida&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-6117907810110306441?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/6117907810110306441/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/o-homenzinho-da-caixa-de-madeira.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/6117907810110306441'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/6117907810110306441'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/o-homenzinho-da-caixa-de-madeira.html' title='O homenzinho da caixa de madeira'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StxDfrEj30I/AAAAAAAAABo/bgvVX3OaGmE/s72-c/O+homenzinho+da+caixa+de+madeira.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-4731713067609130555</id><published>2009-10-19T02:28:00.000-07:00</published><updated>2010-12-15T00:05:24.083-08:00</updated><title type='text'>Do outro lado</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/Stw6IxyG89I/AAAAAAAAABg/HEcsnbSN9IE/s1600-h/Do+outro+lado.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; FLOAT: left; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5394250376159884242" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/Stw6IxyG89I/AAAAAAAAABg/HEcsnbSN9IE/s320/Do+outro+lado.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Há mais de uma semana que não sabíamos o que era uma cama «a sério». Quando chegámos ao hotel, se lhe podemos chamar assim, a burocracia do «check-in» parecia interminável. De um lado nós, com a peculiar impaciência europeia, do outro lado o recepcionista, com todo o tempo do mundo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A nossa viagem tinha sido emocionante, mas muito cansativa; estávamos completamente absorvidos pelo supremo objectivo de chegar ao quarto, tomar banho e dormir. Mas não era fácil. O recepcionista não desarmava e, num tom bastante delicado e pousado, perguntava um a um de onde vínhamos, se tínhamos feito boa viagem, que num dos sítios por onde passámos tinha lá um primo que já não via há muitos anos...bla, blá...blá, blá e mais blá, blá.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Enquanto o recepcionista mauritano praticava o seu francês, nós, completamente alheios ao magnifico entardecer , apressávamos o transbordo dos sacos sempre acompanhados daquela familiar auréola de pó que nos acompanhava desde o início. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O ar estava impregnado de perfumes exóticos. Os jacarandás, as roseiras e as buganvílias, tal como no poema de Jonh Hopkins, não nos deixavam ver, mas ouviamos o burburinho dos vendedores ambulantes e os gritos da crianças que vinham do outro lado, do lado da realidade desconcertante. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;De repente, e do meio das buganvílias, surgiu um míudo, talvez com 10 ou 12 anos, que num francês perfeito perguntou: «precisam de um guia para vos mostrar todos os encantos desta terra abençoada por Alá?» A forma delicada como fez a pergunta desconcertou-nos. Ficamos estáticos a olhar para ele e, sem que disséssemos fosse o que fosse, retorquiu: «vejo que ainda não se instalaram, posso voltar mais tarde, descancem e sejam bem-vindos», desaparecendo em seguida entre as buganvílias, para o outro lado, o lado da realidade desconcertante. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Depois do jantar (leia-se: nosso jantar) o míudo apareceu e renovou o convite. Nós aceitamos. Chamava-se Aziz, tinha 12 anos e nasceu no Níger. Veio para a Mauritânia com o pai, que acabaria por desaparecer no mar. Nunca conheceu a mãe. Era um sobrevivente da realidade desconcertante. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;De mão dada com a miséria, foi arrastado até Kiffa, sabe-se lá porquê. Era um miudo esguio, seco como uma cana, olhos enormes e brilhantes. Repetia com orgulho que tinha um amigo muito importante nos ralis. Num «Paris-Dakar» tinha conhecido, nem mais nem menos, que um senhor chamado Henri Pescarolo, um gigante do deporto automóvel. Aliás, a partir daí, o piloto francês enviava-lhe com alguma frequência roupas e livros. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Aziz gostava muito de ler e tinha uma apetência mutio especial para linguas. Falava francês, inglês, italiano, castelhano e arranhava o alemão.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Foi uma noite muito agradável, embora tívessemos sido verdadeiramente «bombardeados» com perguntas sobre Portugal: Aziz era ávido de conhecimento. Ficámos amigos. No final, perguntei-lhe quanto lhe devia. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Rien Monsieur &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Nada? O que é que te posso oferecer?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Aziz esboçou um sorriso e, meio envergonhado, respondeu: - ofereça-me o colete que tem ali no jipe.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- O colete? O meu colete de estimação? N...Naquele momento o meu egoísmo ia-me traindo, mas não podia desapontar aquele novo amigo. Fui ao jipe, «despi-me» do meu egoísmo mesquinho, abri mão do colete e ofereci-lho.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Estávamos em 1991, decorria o épico «Paris-Dakar» com início em África, em Tripoli, atravessando o resto da Libia, o Níger, o Mali e a Mauritânia, para terminar em Dakar, no Senegal. Os finlandeses Ari Vatanen e Berglund preparavam-se para vencer, pela terceira vez consecutiva, a mítica maratona, agora com o portentoso Citroen ZX. Nas motos assistia-se à consagração de um jovem piloto, cheio de talento, chamado Stéphane Peterhansel. Para trás ficava a morte de Charles Cabanne, piloto de um camião de assistência da equipa Citroen, vítima mortal de um estúpido acidente nas «malditas» pistas do Niger. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Cerca de um década mais tarde, em 2002, estava eu a beber uma Sagres (contrabandeada pelos pescadores portugueses que fainam na costa mauritana) na esplanada do hotel Mercure, em Nouakchott, quando alguém se aproximou e me disse, quase em segredo, que o director do hotel queria falar comigo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-Comigo?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Assenti e, quando entrei no escritório, cumprimentei-o que, com um sorriso jovial, exclamou: - é mesmo você! Não me reconhece? &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Encolhi os ombros e sorri. O director apontou para uma moldura pendurada na parede, ao lado da foto do Pescarolo. Estremeci. O meu colete!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-Aziz! Exclamei com os olhos «cheios de mar».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Sim, sou o Aziz Akar! Lembra-se de mim? Eu estava do outro lado e passei as buganvílias para falar consigo, recorda-se?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;Texto e foto: Manolo&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-4731713067609130555?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/4731713067609130555/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/do-outro-lado.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/4731713067609130555'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/4731713067609130555'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/do-outro-lado.html' title='Do outro lado'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/Stw6IxyG89I/AAAAAAAAABg/HEcsnbSN9IE/s72-c/Do+outro+lado.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-5449208609580497512</id><published>2009-10-19T01:37:00.000-07:00</published><updated>2009-11-13T07:37:16.903-08:00</updated><title type='text'>As minhas botas</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StwsIjlyBfI/AAAAAAAAABY/mwJJuA7-iSQ/s1600-h/425_As-minhas_botas-01.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; FLOAT: left; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5394234979187295730" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StwsIjlyBfI/AAAAAAAAABY/mwJJuA7-iSQ/s320/425_As-minhas_botas-01.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;As minhas botas são «umas» Camel Guatemala. Modelo que pouco tem a ver com a filosofia actual da marca, aliás, que não me interessa sequer abordar, nem tem nada a ver com esta história. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O que realmente vos quero transmitir é que tenho, confesso, uma relação mais ou menos adventícia com as minhas botas. Uma paixão pode-se transformar em amor ou não, mas mesmo que perca a sua chama flamejante, resta quase sempre uma grande amizade, cumplicidade, sentido de protecção intrínseco, é o que se passa com as minhas botas. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Há anos que estas botas me suportam, me guiam e protegem. Hoje, olho para elas e vejo-as gastas, a sola perdeu a maioria do rasto, o couro apresenta alguns danos irreparáveis, cortes e raspões, «rugas» desenhada pelo tempo e pela aventura que, apesar de tudo, lhes dão um charme incontornável. Estão mais bonitas do que no dia em que chegaram às minhas mãos, naquela enorme caixa. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O «Tio Avertino» um experiente sapateiro de Mafra já lhe deu uns «pontitos», adoptando uma atitude digna de um «cirurgião». Fez questão de me pôr a par da «operação» quantos pontos deu, a forma e porquê. " Tem aqui botas para mais uns aninhos". Fiquei aliviado. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Companheiras inseparáveis, recordo, sucintamente, alguns episódios que vivemos juntos, como aquele que protagonizamos na Lousã e que resultou na fractura de duas costelas. Ou então, aquele em 1998, quando fui vitima de um grave acidente na Libia, e já sob o efeito da morfina, apelei aos meus companheiros- que me despiam no hospital - que não me perdessem as botas. Recordo que um deles comentou: "... este gajo está todo partido e está preocupado com a m...das botas". Ou então ainda, quando fui ao Rali do Dubai e a Alitalia, inexplicavelmente, perdeu a minha bagagem. Mais de uma semana sem saber do meu saco, mais de uma semana que vivi com a agonia de nunca mais ver aquele par de botas. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Confesso que nunca as tratei como mereciam. Nunca lhes dei a atenção devida. Que me recorde, só uma ou duas vezes é que as lavei e espalhei «Dubbin» aquele creme especial para couros, que tão bem lhe faz. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Andarilhas, pápa-léguas, as minhas botas estiveram sempre comigo, nos quatro cantos do mundo. Em condições adversas e inópitas: alagadas; sobe neve; na lama; nas grandes altitudes; nos glaciares. Partilharam comigo os medos e os receios, as tristezas e as alegrias que as grandes expedições proporcionam. Já serviram de «caixa-forte» e de travesseiro ao mesmo tempo. Jogamos à bola quando estive no campo de refugiados da Frente Polisário, na Argélia, já corri seca e meca com elas. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Quando entro num hotel, olham-nas de soslaio, como se fossem marginais. Olhares oblíquos, preconceituosos e incrédulos que ignoro, até com uma certa vaidade. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Quando chego a casa, as minhas botas não podem entrar. " O lugar delas é na garagem" É na garagem que elas «dormem» entre os jerrykans e a caixa das cintas, onde esperam por mim uns «crocks» meio abixanados para a troca. Antes de correr a porta da garagem, lanço-lhes um último olhar. Talvez uma forma de agradecer...Elas, as minhas botas, parecem dizer: vai lá que nós ficamos bem".&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Texto e foto: Manolo&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-5449208609580497512?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/5449208609580497512/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/as-minhas-botas.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/5449208609580497512'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/5449208609580497512'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/as-minhas-botas.html' title='As minhas botas'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StwsIjlyBfI/AAAAAAAAABY/mwJJuA7-iSQ/s72-c/425_As-minhas_botas-01.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-19677807620380211</id><published>2009-10-17T08:26:00.000-07:00</published><updated>2009-11-13T07:37:50.976-08:00</updated><title type='text'>O Major</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StnsytOZdBI/AAAAAAAAABQ/DyYRUQkPUGQ/s1600-h/Major_2.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; FLOAT: left; HEIGHT: 239px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5393602384630477842" border="0" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StnsytOZdBI/AAAAAAAAABQ/DyYRUQkPUGQ/s320/Major_2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O major senta-se numa velha caixa de madeira. Num gesto quase mítico acende um «puro» sem deixar de se fixar na ululação dos ventos que fustigam as dunas. Mistérios, segredos indesvendáveis da natureza. Os contornos boleados das dunas, qual corpo de mulher, adquirem formas sensuais e exaltantes.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Há aqui um ar de eternidade...incrível, parecendo ainda possível alguma intimidade com Deus. Observa o major com a voz ofuscada pela comoção. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Aaminah ajoelhou-se, apoiou os braços nas suas pernas e murmurou-lhe num tom doce, quase mudo: - Deus vive aqui.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Aaminah é uma mulher muito atrente: pescoço comprido, carapinha rente, olhos grandes, faiscantes de desejo, cheios de «longe», lábios grossos e divinamente desenhados, seios firmes, não muito grandes mas espetados, ancas boleadas abaixo da fina cintura: um corpo «cheio de Africa».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O major aparenta quarenta e muitos anos. Vida sem passado nem história, passageiro do mundo, de aspecto cerdoso, bochechas gordas, onde sobressaem as enormes aranhas vasculares, olhos azuis embaciados, cabelo liso e fino que sobra, já branco-chumbo sobre o colarinho da camisa, que parece ter nascido com ele.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Não se sabe se esteve nalgum exército, nem tampouco fala disso, não gosta de falar disso; as suas histórias são vagas e quase nunca chegam ao fim. A única coisa que se sabe é que uma forte paixão, recíproca, levou-o a raptar Aaminah no Níger, à revelia da familia cujos membros, soa de aldeia em aldeia, o perseguem pelas areias quentes do Erg, possessos de ódio, dizendo à boca cheia que não descansam enquanto não o desventrarem. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Ao longe, uma «parede» de pó agiganta-se ao mesmo tempo que se aproxima. Calmamente, o major estira o monóculo: «são jipes que se aproximam». A fumaça do «puro» divide-se no rosto bonito de Aaminah que, assustada, corre para a «pick-up» para se vestir. Uma túnica tão diáfana que permite que se lhe vejam as formas extremamente bem proporcionadas do corpo. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-Talvez nos ajudem. Gritou a jovem. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Talvez...Retorquiu o amante ao mesmo tempo que deu alguns passos em direcção aos veículos que se aproximavam. Expedicionários do vento com matricula portuguesa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A «pick-up» do major tem problemas: «o freio do selector da caixa de velocidades está solto, esclarece o «Viking», o nosso mecânico.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Resolve-se? Pergunta o major expectante.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Vamos tentar. Tranquiliza-o o mecânico.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Num ápice, e com um bocado de cinta, a velha «pick-up» está pronta a prolongar a fuga da paixão perseguida. O major agradece e oferece-nos um chá. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A noite está fria e a lua «grávida». Sento-me junto ao major e ofereço-lhe um Montecristo, no «ponto».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Deve ser muito dificil para um jornalista ou até para um escritor descrever toda esta beleza inebriante. Aliás, um jornalista é um escritor menor, não concorda? Não reajo à provocação. O major não dá por falta da resposta e, com o olhar, procura incessantemente Aaminah.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Os meus olhos também a perseguem , mas o meu pensamento fixa-se no do major. Dificil descrever o deserto? O deserto é realmente indescritível! Um imenso mar de areia é tudo o que os olhos alcançam. Dos meus, lacrimosos, à linha do horizonte, é tão longe que é impossivel alcançá-la; ao mesmo tempo tão perto que parece estar ali, ao alcance da mão. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Aaminah aproxima-se de nós, ofereço-lhe um Porto. Estendo-lhe a garrafinha de peito. Admiro aqueles lábios carnudos a encostarem-se com ternura e, ao mesmo tempo com intensidade ao gargalo de metal, enquanto os seus olhos me observam «cheios de perto»...a noite está divina. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Na manhã seguinte seguimos juntos até Ghat, que fervilha de vida e de cor com o seu mercado. Aaminah está feliz. Regateia com entusiasmo o preço dos tomates, tãmaras, laranjas, hortelã... . O major, cauteloso, informa-se acerca da familia de Aaminah. «Andarão por perto?» Um negociante de camelos afirma ter visto, lá para os lados do lago Mandara, «um grupo de pretos reivindicando vingança sobre um bandido branco que lhe teria raptado a irmã».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Despedimo-nos. Aaminah ficou de novo com os olhos «cheios de longe». O major parece resignar-se. Três dias depois tenho um acidente e sou internado no hospital de Nalou. Um médico egípcio, que se habituou a telefonar para casa com o meu telefone satélite que estava na mesa-de-cabeceira em metal, diz-me: Esta semana já é o segundo estrangeiro que entra aqui. Você teve sorte. Ontem, chegou cá um completamnte desventrado, muita falta de sangue, paragem cardíaca, não pudemos fazer nada...parece que era militar.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- E a rapariga?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Rapariga? Não vinha nenhuma rapariga com ele. Dá-me licença que telefone para casa?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;Texto e foto: Manolo&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-19677807620380211?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/19677807620380211/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/o-major.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/19677807620380211'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/19677807620380211'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/o-major.html' title='O Major'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StnsytOZdBI/AAAAAAAAABQ/DyYRUQkPUGQ/s72-c/Major_2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-6601046954118416603</id><published>2009-10-16T03:51:00.000-07:00</published><updated>2009-11-13T07:38:38.275-08:00</updated><title type='text'>Amargo como a a vida...</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/SthgcTEqB_I/AAAAAAAAABI/BczI9__oqTs/s1600-h/425_Amargo-como-a-vida.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; FLOAT: left; HEIGHT: 213px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5393166593048578034" border="0" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/SthgcTEqB_I/AAAAAAAAABI/BczI9__oqTs/s320/425_Amargo-como-a-vida.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O branco da roupagem ofusca-me o olhar.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Serenamente, como um velho ascensor, soergo a cabeça e, com o olhar acompanho aquele enorme vulto, impávido, que me observa das alturas. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Levanto-me, aceno-lhe com a cabeça em sinal de cumprimento e estendo-lhe a mão. Num gesto rápido toca a sua mão na minha.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-Shalam&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-Shalam. Respondo-lhe.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O homem que está à minha frente é alto, bigode denso, olhos negros e pequenos. Mal lhe vejo o rosto porque o &lt;em&gt;Chech&lt;/em&gt; (peça de musselina que serve para enrolar à volta da cabeça) tapa-lhe a cara, mas dá para ver, pelos sulcos e refegos, que estou perante um homem que ronda os cinquenta e poucos anos. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Encontro-me - ou pelo menos penso que sim - na fralda do Erg Mourzouk, em pleno deserto libio, a pouco mais de 100 quilómetros da aldeia mais próxima, Tajarhi. Alguns dias antes, não sei quantos, perdi-lhe a conta, saí de Ghat com o objectivo de navegar pelo deserto. Ventos intempestivos retardaram a minha navegação. O destino levou-me, contrariado, até à orla do Mourzouk.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A certo momento da minha rota optei, ou melhor, fui obrigado a rumar para sul, As &lt;em&gt;barkanes (dunas crescentes) &lt;/em&gt;dificultaram a minha progressão. O excesso de peso, a temperatura, a «fornalha» do pico do Sol que descolora o céu abatendo-se numa caícula infernal sob os pés, não dão tréguas.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O GPS avariado, «quem te avisa teu amigo é, leva dois». Optei por trazer apenas um e, com ele «fora de combate», perdi-me. Dou comigo em terra de ninguém, provavelmente nas planuras do Níger. Não encontei a temida máfia, mas temo o banditismo, grupos armados que percorrem a região com o intuito de pilharem (&lt;em&gt;razzias&lt;/em&gt;) os camiões de emigrantes que regressam da Líbia. Neste contexto a solidão do deserto revela-se uma óptima companhia, ao mesmo tempo que «mergulho» em reflexões ambíguas. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A longíqua linha do horizonte cerca-me, avalio as hipóteses de sobreviência, abro os braços para o céu e peço ajuda a Deus, seja ele quem for.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Os motivo que me trouxeram até aqui, agora não têm a mínima importância, esqueci-os, tornaram-se insignificantes: minusculos grãos de areia perante tanta e cruel beleza. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;À noite é mais difícil, a comichão não me deixa dormir: uma mordidela de um «piolho de camelo», vulgo carraça, ferrou-me sem apelo nem agravo a perna direita quando me cruzei com um &lt;em&gt;mehari&lt;/em&gt; (caravana de mercadores). Tento combater a dor com o que tenho à mão: «Disoderme» e algum, muito pouco, «Bushmills».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Um curioso feneco (animal semelhante à raposa, embora mais pequeno, e com enormes orelhas) acompanha-me há três dias. Partilho algumas migalhas com o bicho. Esta partilha cria uma cumplicidade entre nós. Nunca se aproxima demasiado, observa-me à distância, como se partilhasse a minha sobrevivência. Claro que neste caso o animal é vitorioso, e eu derrotado, de qualquer maneira estamos unidos. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Um fim de tarde, tentei uma aproximação com a única maçã que me restava. Eriçou as orelhas, avançou e recuou. Sem dar um passo que fosse, lancei-lhe o fruto com suavidade que rolou até muito perto de si. Sem deixar de me fixar, a «raposa do deserto» trincou-o e desapareceu entre as dunas. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Sozinho de novo, anseio por alcançar de alguma forma Tajarhi, ou outra aldeia qualquer, tudo serve. A «pick-up» resiste mas, o combustível não é muito. Se tudo correr bem consigo fazer os 100 quilómetros em dois ou três dias.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Foram três longos dias. Continuo perdido e a comichão agora é visivel através de um inchaço com muito mau aspecto. Tenho dois litros de água; duas latas de atum; um pacote de bolachas e um «fundinho de Bushmills». Deve faltar pouco. Vou beber o último trago e dormir; amanhã prosseguirei o meu instinto com base nos parcos conhecimentos de pura navegação. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A manhã está cinzenta, sopra um vento que me bombardeia com milhões de minúsculas «balas» de areia. À pressa, arremeço tudo para dentro da «pick-up» e tento progredir. Faço-o por pouco mais de um quilómetro e desisto, paro e aguardo que a fúria da natureza se acalme. A tempestade de areia é passageira e rápida e de novo cá estou eu, mais uma vez, sob o braseiro saariano e enterrado até aos cabelos. Caí numa zona de &lt;em&gt;fesh-fesh&lt;/em&gt; (um tipo de areias movediças, mas secas). Pego na pá e começo a cavar junto às rodas. A frescura de uma sombra abate-se sobre as minhas costas...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O homem sorri, ajoelha-se e, com os braços, afasta a areia que está debaixo dos eixos. Feliz, corro energicamente com a pá para o ajudar mas, ao mesmo tempo, pega-me no braço e com a outra mão faz-me sinal para ter calma; simultaneamente aponta para o Sol. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O crepúsculo avança. é a hora bendita do deserto. Bohammama é alto, bigode denso, olhos pretos e pequenos, cabelo grisalho e ostentoso. O tuaregue convida-me para jantar. Depois de uma massa apetitosa, com pão cozido alí à minha frente, é a hora do chá, o chá da amizade: «o primeiro bebe-se amargo, como a vida, o segundo doce, como o amor, o terceiro suave, como a morte».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A noite está divina, a Via Láctea mais cintilante que nunca. Boahammama também vai para Tajarhi. Pergunto-lhe: - quantos quilómetros faltam?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Cerca de 250...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Antes de me fechar no saco-cama, não resisto à tentação e faço-lhe nova pergunta: - como me encontraste?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Foi uma raposa que me avisou. Dorme bem.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Texto: Manolo &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Foto: Jorge Cunha&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-6601046954118416603?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/6601046954118416603/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/amargo-como-a-vida.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/6601046954118416603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/6601046954118416603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/amargo-como-a-vida.html' title='Amargo como a a vida...'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/SthgcTEqB_I/AAAAAAAAABI/BczI9__oqTs/s72-c/425_Amargo-como-a-vida.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-6774176867058171182</id><published>2009-10-14T10:36:00.001-07:00</published><updated>2009-11-13T07:39:15.565-08:00</updated><title type='text'>A Máscara</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StYXDlrqFCI/AAAAAAAAABA/PWLilS-c8ws/s1600-h/a_mascara.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 180px; FLOAT: left; HEIGHT: 300px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5392522954245018658" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StYXDlrqFCI/AAAAAAAAABA/PWLilS-c8ws/s320/a_mascara.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O Sr Fernando não queria acreditar, mas foi o chefe da polícia que o aconselhou a chamar o feiticeiro. «Ele tem poderes que mais ninguém tem». Palavra de autoridade!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O proprietário da Pousada do Saltinho estava perplexo: « o que é que eu vou fazer agora?», dizia numa expressão meio de lamento meio de incredulidade. «Desapareceu uma máquina de cortar azulejos, chamo a polícia e dizem-me para procurar o feiticeiro, ora esta!»&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Oh Xô Fernando, chame lá o homem, vá.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Tá a brincar comigo? Você tem cada uma...que nem lembrava ao diabo.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-Chame-o lá, talvez o homem acerte. E se ele descobrir o que aconteceu à máquina...,afinal, não é isso que você quer?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O Sr. Fernando bebeu o último gole da Cergal, ajustou os calções à cintura, num gesto típico dos militares, sem deixar de olhar fixamente para a antiga ponte Craveiro Lopes que liga as duas margens do rio Curoval, suspirou, e, em seguida, com o semblante carregado, ordenou que fossem à tabanca (aldeia) chamar o feiticeiro.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Na Guiné-Bissau existem muitas crenças relacionadas com bruxaria e com outros mitos. Acredita-se, por exemplo, nos homens-lagarto e nos homens-lobo, os primeiros que se transformam em lagartos quando entram dentro de água, os segundos em lobos, de noite, para «fazerem mal às pessoas». Os feiticeiros têm muito poder, são curandeiros e, na maioria dos casos, visionários.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O entardecer despontava triste no Saltinho, não era para menos, suspeitava-se de alguém. A máquina de cortar os azulejos tinha desaparecido, os trabalhadores das obras e os serviçais da &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;pousada, preocupados e nervosos, andavam de um lado para o outro. Os macacos alvoraçados «não eram um bom presságio», enquanto os lagartos, às centenas, pareciam disputar entre si qual deles batia o recorde das flexões. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Do outro lado da estrada agigantava-se uma queimada, de onde surgiu o feiticeiro. Depois de uma troca de palavras em crioulo, só percebi o policia dizer: «é um problema».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O feiticeiro é um homem de estatura média, sisudo, carapinha branca, veste uma túnica preta até aos pés descalços e trás na mão uma saca de pano. Manda reunir todos os trabalhadores que se posicionam ao seu redor, formando uma meia-lua. Tira da saca o que parece ser uma máscara e, ao meu lado, o chefe da polícia sussurra-me: «só ele é que tem esta máscara, foi um espírito que lha enviou».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O feiticeiro pede que matem uma galinha preta. No meio daquele silêncio «ensurdecedor», ouve-se com clareza o som do corte fatal e completo no prescoço da pobre ave. O sangue espicha, recuo rapidamente e só me apercebo de que o feiticeiro já tem a máscara quando leva as mãos ensanguentadas junto à cara, como se fosse um espelho e diz: «já sei quem roubou o apetrecho».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Reconheço a máscara, que impressiona pelo seu intenso cromatismo. Pertence aos Woyo, uma tribo que vive na África Ocidental, junto ao estuário do rio Zaire, no Congo e em Cabinda.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;No século XV o seu primitivo reino era conhecido por Ngoyo. As máscaras deste povo são de madeira, pintadas de cores intensas, por vezes sobre um fundo branco, outras vezes decoradas com objectos sagrados -nkissi -, e têm significados simbólicos; são máscaras rituais por vezes usadas nos cerimoniais Ndunga. Esta máscara, oriunda de artesãos angolanos de Cabinda, têm um aspecto pouco pacífico, mostra uma boca com dentes pequenos e afiados, resultantes do costume dos Woyo e do Congo limarem os dentes. O seu expressionismo convida-nos a nela ver-mos tudo. A que faz parte da minha colecção foi-me oferecida por Konstatin Komkov, amigo e credenciado jornalista russo de todo-o-terreno, que viveu cerca de dois anos em Angola. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Entretanto, o feiticeiro manda abrir um buraco na terra para enterrar a galinha e, ao lado, uma cova para enterrar vivo - sim, disse vivo -, o culpado, se entretanto não se acusar antes dos «coveiros» terminarem o trabalho. Um silêncio tenebroso apodera-se dos presentes e só se ouve o som das enxadas a castigar a terra, a castigar a alma. De repente, um moço dá um passo em frente e acusa-se: «foi eu patrão».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;O chefe da policia cochicha-me ao ouvido: «a máscara é poderosa, tem o poder dos espíritos, eu não lhe disse».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Mais tarde aproximo-me do feiticeiro, apresento-me, gabo-lhe a eficácia da sua psicologia e, com muito cuidado e sem querer ferir sugestibilidades, pergunto-lhe de onde provêm a sua máscara. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;«A máscara? Foi um amigo angolano que vive em Bissau que me ofereceu». &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Texto e foto: Manolo&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-6774176867058171182?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/6774176867058171182/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/mascara.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/6774176867058171182'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/6774176867058171182'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/mascara.html' title='A Máscara'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StYXDlrqFCI/AAAAAAAAABA/PWLilS-c8ws/s72-c/a_mascara.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-7007929739375704620</id><published>2009-10-13T06:25:00.000-07:00</published><updated>2009-11-13T07:39:45.287-08:00</updated><title type='text'>Passagem de nível sem anjo-da-guarda</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StSK_5Q-IqI/AAAAAAAAAA4/GZ8vP5p2Eic/s1600-h/explos%C3%A3o.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; FLOAT: left; HEIGHT: 214px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5392087484177719970" border="0" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StSK_5Q-IqI/AAAAAAAAAA4/GZ8vP5p2Eic/s320/explos%C3%A3o.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Olá amigão.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Já estou há dois dias em Zouérat. Eu sei, eu sei...estive alguns dias sem dar noticias, mas não te preocupes, estou protegida pelo meu anjo Gabriel, o meu anjo-da-guarda. Lembras-te de Sarajevo? Andei quase 15 dias sem poder dar noticias.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Aqui já passa da meia-noite, está imenso calor e um luar enorme que parece eterno. Zouérat é uma pequena cidade mineira e todos, mas mesmo todos, já sabem que cá estou. Agora, enquanto te envio este e-mail, neste pequeno alpendre, sou vista pelos habitantes locais, provavelmente, como uma ave de arribação. Ao principio, confesso, era uma situação constrangedora, mas agora retribuo com um sorriso, são simpáticos. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Finalmente, amanhã de manhã cedo, encontro-me com Heiba Salama, o guia que me levará por entre terras de ninguém até aos territórios do povo sarauí. Estou com esperança de conseguir uma entrevista com um dos seus líderes. Com um pouco de sorte, dentro de dois ou três dias envio-te uma peça daquelas que tu gostas, e claro, para calar o «boss» por causa dos custos, não é? Por falar no «manda-chuva», continua zangado com o mundo ou faz intervalos de vez em quando? Claro, só pode ser assim. Realmente, só tu tens pachorra para o aturar. Mas não é nada disto que te queria falar. Se estou a roubar tempo ao sono, e enquanto te escrevo já vou no quarto chá de menta, é porque te quero contar uma coisa fabulosa que se passou comigo ontem à noite. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Depois do jantar fui dar uma volta pela cidade ( aqui não se consegue adormecer antes das duas da manhã), contemplava o pouco que há em meu redor e pensava: aqui dá-se importância às pequenas coisas da vida, coisas que no nosso mundo ocidental nos passam completamente despercebidas. Coisas simples, muito simples, e estava eu a reflectir nisto, quando à minha frente surgiu um miudo , talvez com dezasseis, dezassete anos, alto, com uma túnica branca como a neve e um chech a cobrir-lhe a cabeça, donde faiscavam uns olhos verdes (Meu Deus, que olhos) que me perguntou, num francês doce, se podia saber o meu nome. Fiquei paralisada, mais pela surpresa do que pela candura - imagina a cena - sem deixar de me olhar com aquelas duas esmeraldas hipnotizadoras, aqueles dois oceanos; de seguida retorquiu: - é secreto?&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;- Secreto? Por que raio o meu nome havia de ser secreto? Imaginei logo que fosse para os apanhados: o «Apolo imberbe» e a quarentona. - Laura. Respondi-lhe de forma neutra, mas ansiosa por uma resposta. - Laauuraa...Repetiu o meu nome de tal forma, com um glamour tão intenso que só pude baixar os olhos. Nos segundos que se seguiram reuni de emergência com a minha consciência. Estava feliz, naquele momento era feliz, mesmo sabendo que ali estava porque o exército marroquino atacara o povo sarauí com gás napalm e fósforo branco na malfadada «marcha verde».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Aqueles olhos verdes mostravam tanta atitude, que não consegui negar-me a passear com ele pela cidade. Era já suficientemente «adulto» para não me acusarem de pedofilia, por outro lado, ainda era bastante jovem para que se pensasse numa «aventura» com o rapaz. Provavelmente a sua mãe não gostaria que uma quarentona sem escrúpulos lhe levasse o filho para a cama. Uma mulher que podia ser sua mãe! Bolas, mas o rapaz tinha direito a esta experiência de vida e eu também. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Cada vez parecia estar mais calor, e a cada segundo que passava aumentava o meu desassossego. Sabes como por vezes sou tão indecisa, imagina como me sentia. Há coisas nem sempre fáceis na vida e, seduzir um jovem, talvez inexperiente, é uma delas; mas por outro lado, qualquer mulher, mesmo uma esquerdista como eu, gosta de ser tratada como uma princesa.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Convidou-me para passear pelas dunas de jipe, sabes, num daqueles clássicos que tu me costumas falar. Toyota? Land Rover? Não sei, mas ele conduzia com estilo. Navegava naquele mar de areia com suavidade, enquanto o luar nos banhava como se fossem holofotes da ribalta. Aqueles olhos verdes, aquele «Adónis», pelo menos por uma noite, era o homem dos meus sonhos. Se este rapaz queria o meu corpo, já há muito que era dele. Parou o jipe, pegou-me na mão, o resto não te conto...&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Amigão estou feliz. Dentro de dias dou noticias. Quando chegar vamos àquele restaurante do Bairro Alto, ai como é que se chama? Depois dizes-me. Obrigado pela tua amizade. Laura.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Um dia depois chegou à nossa redacção, o seguinte e-mail:&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;COMUNICADO&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Na manhã de hoje sairam de Zouérat dois jipes do exército mauritano, comandados pelo Tenente Moussa Ibraim, num patrulhamento de rotina. Junto ao caminho-de-ferro, perto da passagem de nível, encontraram um jipe alvo de um ataque e parcialmente destruído. Dentro do véiculo encontrou-se o cadáver de um homem chamado Heiba Salama, reconhecido guia da Frente Polisário. A uns metros de distãncia, no chão, o cadáver de uma mulher com passaporte português e carteira de jornalista, de nome Laura Amares Machado. Os cadáveres e alguns objectos pessoais foram trasladados para o aquartelamento da companhia de Zouérat, até se receberem instruções precisas do batalhão. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Alá nos porteja. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Capitão Ahmed Hassan&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Texto e foto:Manolo&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-7007929739375704620?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/7007929739375704620/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/passagem-de-nivel-sem-anjo-da-guarda.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/7007929739375704620'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/7007929739375704620'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/passagem-de-nivel-sem-anjo-da-guarda.html' title='Passagem de nível sem anjo-da-guarda'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StSK_5Q-IqI/AAAAAAAAAA4/GZ8vP5p2Eic/s72-c/explos%C3%A3o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6141941939922935218.post-1995437228939102980</id><published>2009-10-13T03:13:00.000-07:00</published><updated>2009-11-13T07:40:39.532-08:00</updated><title type='text'>Perfect Day</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StRhTOEeNpI/AAAAAAAAAAM/-aUynOH2Nro/s1600-h/425-Gorila.jpg"&gt;&lt;img style="MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; FLOAT: left; HEIGHT: 237px; CURSOR: hand" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5392041636691588754" border="0" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StRhTOEeNpI/AAAAAAAAAAM/-aUynOH2Nro/s320/425-Gorila.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;República Democrática do Congo. Desde Goma que o estóico Galloper se queixava da «má vida» que lhe tinham dado. Um vida dura, sem revisões, mudança de filtros, reapertos, enfim, sem nenhum tipo de manutenção. Os manómetros não funcionavam, a suspensão há muito que se tinha esquecido das suas funções e o motor revelava uma arritmia como se o seu «nó sinusal» não conseguisse estimular o «coração». «Gasta um pouco de óleo, mas chega lá» dizia-nos o moço do «rent-a-car»à porta do Hotel Lhusi, enquanto «emborcava» o terceiro litro de óleo no malfadado Galloper. Adivinhávamos uma viagem muito agitada até às entranhas das montanhas do Virunga, onde Emmanuel de Merode, director do WildlifeDirect, estava à nossa espera para nos guiar a esse mundo magnífico dos gorilas, no Parque Nacional de Virunga. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;No dia anterior tinhamos voado num velho Antonov de Kinshasa para Goma. De início pretendíamos atravessar o território congolês de jipe, mas o meu estimado amigo e camarada de trabalho da Invicta, Rui Newnann, correspondente em África da PNN (Portuguese News Network), habituado aos cenários de risco, foi muito claro: «via Uganda por terra nunca, devido a um movimento pouco simpático autodeterminado «Exército do Senhor», que gosta muito pouco de brancos, não te metas nisso».&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Para alcançar o objectivo «bastavam» apenas cerca de 300 km através da segunda maior floresta tropical do mundo, só superada pela Amazónia. No entanto, não sei porquê, eu estava preocupado e tu...sorrias.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;As mochilas, o telefone satélite, dois pacotes de bolachas rançosas, três garrafas de água, uma confiança cega no GPS e algumas notas de 1 dólar, pois é sempre preciso subornar alguém. Na boa tradição decretada por Mobutu «torna-se válido para todos os congoleses o artigo 7º, ou seja,...desenrasquem-se!», era este o nosso principal equipamento. Ultrapassados os trâmites legais, e os menos legais, entranhámo-nos na floresta do ex-Congo Belga e ex-Zaire. Queriamos chegar ao fim da tarde ao primeiro posto do Virunga, no Parque Nacional, o primeiro a ser criado em 1925 e decretado património da Humanidade em 1979, onde continuam a ser dizimados gorilas a um ritmo inacreditável, o que coloca a espécie em vias de extinção.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A beleza que os nossos olhos rasos de água alcançavam aprisionou-nos de deslumbramento. Rendidos completamente ao fascínio da floresta tropical, não nos apercebemos que o Galloper começava a agonizar. Estávamos mais ou menos a 85 km do ponto de chegada, senti alguma prisão do motor e, pelo sim, pelo não, resolvi parar e verificar o nível do óleo: completamente seco. Nada que eu não tivesse já pensado, mas tu sorrias e dizias que ia correr tudo bem. Se os manómetros funcionassem já há muito que se teriam queixado. Com muito esforço avancei apenas alguns metros para junto de uma pequena clareira, ao lado do trilho de onde se vislumbrava, num vale a cerca de 300 metros, uma cachoeira cujas águas se perpetuavam num lago enorme. Não havia nada a fazer. Como que encantados pela luxuriante vegetação, demos as mãos e passeámos como namorados em Central Park. Os pássaros e o estremecer violento das folhas das árvores provocado pelo saracoteio dos chimpanzés mais curiosos não te causavam receio, mas a hipótese de encontrarmos um réptil causava-te apreensão; e eu sentia a tua mão apertar a minha com mais força. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Tentamos entrar em contacto com Emmanuel de Merode através do Iridium, sem êxito, a ligação estava péssima, não havia sinal. Vasculhei o Galloper todo na esperança de encontrar uma lata de óleo, mesmo que fosse daquele a granel para camiões que o moço do «rent-a-car» deitou pela «goela abaixo» do motor de primeira geração Mitsubishi. Nada!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Fazia muito calor e apetecia-nos mergulhar nas águas do lago, mas a prudência é sempre boa conselheira; entrar nos rios e nos lagos deste país é interpretado como suicidio, os hipopótamos, por exemplo, são os animais que matam mais gente. &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Tentámos de novo entrar em contacto com Emmanuel De Merode. «Estão atrasados? Perderam-se?» Depois de lhe explicar o sucedido e de lhe ter passado as nossas coordenadas, deu uma gargalhada: «tudo bem, nós vamos aí buscá-los e rebocamos o jipe se for necessário. Tenham cuidado, não se aproximem dos rios, mantenham-se calmos, Não tarda nada estaremos aí.»&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;A noite estava quente, no chão corriam, aqui e ali, fios de água que, encorpando-se, formavam uma teia complexa , diminuta e peculiar que abastece os córregos, os rios e os lagos num ritual milenar. Escolhemos um local mais seco e começámos a preparar a nossa ceia. Sobre enormes folhas verdes colocámos as bolachas e, como se impunha, tratei de abrir a água com o ritual como se de um excelente Douro se tratasse. Repartimos as bolachas com beijos e a atmosfera parecia impregnada de uma paz avassaladora. De vez em quando ouvíamos berros ululantes e grunhidos de gorilas, ora agudos ora suaves. Quedos, fitávam-nos olhos nos olhos e dizias: «é longe», e beijavas-me. O perfume das flores, das folhas, dos caules e dos bambus tranquilizava-nos. Era o perfume do nosso amor. Ouvimos vezes sem conta «Perfect Day» , de Lou Reed, a única música que tinha no telemóvel; viestes morar no meu corpo. Saciámos a sede de desejo e, por cima dos nossos corpos molhados, um candelabro de pirilampos iluminava a nossa paixão enquanto «Perfect Day» ecoava, floresta adentro: «Oh it's such a perfect day / I'm glad I spent it with you / Oh such a perfect day / You just keep me hanging on...You just keep me hanging on...»&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Antes do romper da aurora fomos repentinamente acordados pelo roncar de um potente motor. Estremunhados, escondemo-nos na floresta quase impenetrável e ficamos em silêncio com receio que fosse um grupo de rebeldes. Um enorme camião Deutz parou junto ao Galloper e, para nosso gáudio, vimos sair Emmanuel de Merode que se desfez em mil desculpas. « Só de madrugada é que conseguimos este camião. Peço mil vezes perdão por deixá-los tanto tempo aqui sózinhos, à mercê dos perigos da floresta. Meu Deus, estão assustados? E a senhora, que chatice...». Enquanto Nogbobo, o mecânico, pigmeu da tribo Mbuti, «emborcava» mais uns litros de óleo no desventurado Galloper, e Emmanuel de Merode se desfazia mais uma vez em mil desculpas, nós olhámo-nos nos olhos, sorrimos, e nos nosso lábios podia ler-se, em silêncio: «Perfect Day». &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Texto: Manolo &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Foto: Pablo Moreira. UNESCO&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6141941939922935218-1995437228939102980?l=deixempassaroselefantes.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/feeds/1995437228939102980/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/perfect-day.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/1995437228939102980'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6141941939922935218/posts/default/1995437228939102980'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://deixempassaroselefantes.blogspot.com/2009/10/perfect-day.html' title='Perfect Day'/><author><name>Manolo</name><uri>http://www.blogger.com/profile/00841120045539921148</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='31' height='21' src='http://4.bp.blogspot.com/-cwnPh2yb9i8/TeO9eveYhiI/AAAAAAAAAFM/SZrdsUQ2ER4/s220/Congo%2B130.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_x4Nie7-Dk-g/StRhTOEeNpI/AAAAAAAAAAM/-aUynOH2Nro/s72-c/425-Gorila.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
