sábado, 7 de abril de 2012

Tuaregues: quem são os homens que dividiram o Mali




Eles querem ser chamados tamasheq, o nome da sua língua, porque recusam ser os "abandonados por Deus". No Norte do Mali, já proclamaram uma nova pátria. Quem são os guerreiros de véu e turbante azul?


Referenciados pela primeira vez por Hérodoto, no século V. a.C., os nómadas do deserto têm uma cultura e uma identidade únicas.




Awazad



Situada nos vastos desertos do Sara e do Sahel, Awazad ou Azaouad é uma região na qual os tuaregues incluem o Norte do Mali (mas também o Norte do Níger e o Sul da Argélia). O Movimento Nacional para a Libertação do Azawad (MNLA) proclamou nesta sexta-feira um Estado independente após a rápida conquista ao exército maliano das cidades de Tombuctu, Kidal e Gao. Uma área que é supostamente um centro de tráfico de cocaína, Awazad foi cenário de várias rebeliões: em 1962-1964, em 1990-1995 e em 2007-2009. A revolta deste ano derrotou facilmente um exército, com poucas munições e muitos generais corruptos, incapaz de enfrentar milhares de antigos soldados e mercenários tuaregues que regressaram ao Mali bem treinados, financiados e armados, depois de terem servido Muammar Khadafi na Líbia, até à queda e morte do coronel em 2011. Obter o reconhecimento internacional será agora o objectivo da luta do secessionista ainda que "laico e democrático" MNLA. Mas tudo dependerá da sua vontade e capacidade de derrotar os radicais salafistas do Ansar Dine e da Al-Qaeda no Magrebe Islâmico (AQMI), que querem islamizar todo o Mali.

Berbere



O termo "berbere" advirá do latim barbarus (bárbaro), mas os berberes tuaregues - cerca de um milhão - preferem chamar-se Imazighen (homens livres). Originalmente brancos do Mediterrâneo, foram-se misturando com as populações do Sara e do Sahel e, hoje, podem ser louros ou ruivos (nas montanhas Atlas de Marrocos) ou de pele negra (na região subsariana). Não é possível determinar como os tuaregues chegaram ao Norte de África, mas confirma-se que são um grupo berbere com a sua própria língua (Tamashek) e alfabeto (Tifinagh). Quem primeiro registou a existência destes nómadas terá sido Heródoto, no século V a.C., na Líbia. Guerreiros de espada (takoba), lança (allagh) e escudo (aghar), os tuaregues controlaram durante séculos as grandes rotas comerciais que atravessavam o Sara. Só em 1917 é que a Legião Francesa - depois de anos de combates e massacres - conseguiu "pacificar" os tuaregues. Findo o período colonial, nos anos 1960, o território dos nómadas foi artificialmente dividido por vários países independentes: Argélia, Burkina Faso, Líbia, Mali e Níger.

Charles de Foucauld


Descendente de cruzados e oriundo de uma família aristocrata e próspera, Charles Eugène de Foucauld nasceu em Estrasburgo em 1858. Aos 26 anos, depois de "uma vida de luxúria e aventuras amorosas" como geógrafo e oficial de cavalaria do Exército francês, deixou de ser agnóstico e tornou-se padre eremita. Em 1905, foi viver entre os tuaregues, na região argelina de Ahaggar. Recentemente beatificado pelo Vaticano, foi durante muito tempo olhado como "espião disfarçado de monge", mas todos lhe reconhecem, agora, a divulgação, local e internacional, da língua e cultura tuaregues. A 1 de Dezembro de 1916, salteadores atacaram o seu refúgio e um deles matou-o a tiro. O "irmão universal" morreu aos 58 anos, mas tem hoje 15 mil discípulos, entre eles a Fraternidade das Irmãzinhas de Jesus, que chegou em 1939 a Portugal, onde as suas religiosas, que não são missionárias, vivem e trabalham com os mais pobres, em bairros degradados, fábricas ou prisões.


Dassine


Sultana do Deserto, Rainha do Amor ou Mensageira da Paz, é assim que os tuaregues reverenciam a sua grande poeta Dassine Oult Yemma. Dois versos que eles repetem: "A água murmura "Eu amo-te" quando toca os nossos lábios com o mais suave dos beijos"; "Que interessa esses véus sob os quais te escondes - eu afasto-os tal como o sol desvia as nuvens". A poesia ocupa um espaço fundamental na cultura tuaregue, e um tema recorrente é o dos corações destroçados. Na língua Tamasheq, a palavra "calor" (tuksé) deriva de "sofrimento". Veja-se este poema, composto em 1890: En ce jour que j"ai quitté Tella/ elle tenait une réunion galante pour les personnes présentes ; je suis parti/ l"âme brûlée de douleur, le cœur embrasé/ semblable à un tison enflammé/ sur lequel souffle le vent et qui brûle de tous côtés. / Je prie Dieu de me faire voire celle que j"aime/ pour que je ne meure pas ici de la douleur de son absence. 


Feudal



Os tuaregues mantêm um sistema hierárquico feudal de clãs (tawshet), que consiste num pequeno número de famílias nobres e tribos de marabus ("homens santos, com poderes de abençoar, proteger e curar, mesmo depois da morte"); uma maioria de vassalos e três "classes inferiores" de antigos escravos. Os iklan apascentam o gado, cozinham (a alimentação básica dos tuaregues é queijo e manteiga de cabra com tâmaras - a carne é limitada a ocasiões festivas) e fazem outras tarefas domésticas; os inaden são sobretudo artesãos e ferreiros; os harratin, de pele negra, trabalham nos campos onde se cultiva milho, centeio e trigo.

Islão


Muçulmanos mas não árabes, os tuaregues preservam rituais animistas, rezando a divindades do deserto, como pedras, água, fogo e montanhas. Na prática islâmica de lavar as mãos, a água, cada vez mais escassa, é substituída pela areia. No Norte do Mali, onde os tuaregues proclamaram agora um Estado independente, predomina a escola teológica maliquita do sufismo, corrente mística e tolerante da religião "revelada" a Maomé. 



Kel Tamasheq



Ainda que divididos em várias tribos e clãs, os tuaregues fazem questão de afirmar a sua identidade única chamando-se a si próprios Kel Tamasheq, ou "Os que falam Tamasheq". Há uma campanha em curso para que sejam designados como tamasheq e não tuaregues - termo cuja origem tem suscitado várias interpretações: uns alegam que provém do árabe Tawariq, com o significado de "abandonados por Deus"; outros ligam-no a Targa, em Fezzan, actual Líbia. Os tuaregues/tamasheq têm o seu próprio alfabeto, Tifinagh, composto por símbolos geométricos, um total de 24, na forma de linhas, pontos, círculos e formas. Este alfabeto escreve-se da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, de cima para baixo ou de baixo para cima - por isso é de difícil leitura. A origem do Tifinagh é indefinida. Alguns sugerem que não há nada de implicitamente amazigh (língua berbere), mas os tuaregues insistem em que é indígena. Para eles, Tifinagh é um termo composto por "Tifi", que significa "descoberta", e pelo adjectivo possessivo "nnagh", com o significado de "nosso". Assim sendo, Tifinagh quererá dizer "a nossa descoberta". Outras teorias referem que o alfabeto provém do Egipto ou do Sul da Arábia; do grego ou do latim; dos cartagineses ou dos fenícios.

Mulheres


As mulheres tuaregues gozam de grande respeito e liberdade, participam nas decisões da família e da tribo, e podem manter relações com homens antes do casamento, rompendo a tradição ortodoxa islâmica. Um dos provérbios deste povo diz: "As mulheres e os homens são, uns e outros, para os olhos e para o coração; não apenas para a cama". São uma sociedade matrilínia (a liderança, a descendência e a herança são definidas pela linha da mãe), mas não matriarcal (o poder é detido pelos homens). São as mães que ensinam às filhas o alfabeto Tifinagh e arte de tocar o violino imzad - arte exclusiva das mulheres. Diz-se que, nos combates, os homens faziam tudo para demonstrar coragem, com medo que as noivas os privassem dos sons do imzad. O desejo de ouvir este instrumento incutia-lhes valentia e incitava-os a derrotar os inimigos.


Nómadas


Se inicialmente eram nómadas errantes do deserto, muitos tuaregues foram obrigados, para sobreviver, a render-se ao sedentarismo. Em todo o caso, muitos ainda vagueiam errantes em tendas móveis, um apertado círculo de 5 ou 6. Uma tenda é composta de 30 a 40 peles curtidas, tingidas de vermelho e cosidas umas às outras. As peles são suportadas por uma estrutura de estacas de madeira, fixadas ao solo. Cada tribo é governada por um chefe e uma assembleia de homens adultos. As tribos agrupam-se em três confederações, cada uma com um xeque e um conselho de responsáveis de clãs. As confederações, por seu turno, têm um líder máximo (amenokal) e um conselho de nobres. Entre as tribos mais importantes estão as de Kel Rhela, Dag Rhali, Issaqqamaren e Ait Laoin.

Oy ik?


Os tuaregues têm uma forma muito particular de cumprimentar os outros. No dialecto regional Air, por exemplo, começam por perguntar Oy ik? (Como está?), seguindo com Mani egiwan? (Como está a sua família?) e depois por Mani echeghel? (Como vai o seu trabalho?). A resposta mais educada a todas estas interpelações será Alkher ghas (Está tudo de boa saúde).


Sedução


Os tuaregues têm um ritual a que chamam "código de sedução". No silêncio do deserto, de manhã até ao meio-dia, antes do pôr-do-sol, ou à noite, sob um céu estrelado, juntam-se para tocar o violino imzad e cantar poemas. Depois de recolherem o leite dos rebanhos e antes de irem para a cama, os homens pedem às organizadoras destas reuniões sociais ou encontros românticos (djalsa) se os voltam a convidar. Para saberem, discretamente, a resposta das mulheres que querem conquistar, usam linguagem gestual. Desenhar um círculo na palma da mão de uma jovem e depois apontar para lá com o dedo indicador é uma declaração de amor. Se a jovem pega na mão direita do pretendente e com o seu indicador traça uma linha diagonal para a frente e depois para trás, isto significa: "Deixa o resto das pessoas e vem para junto de mim". Se ela traça a linha diagonal numa só direcção, a mensagem é: "Vai-te embora, e não voltes." Se um homem notar que a rapariga é disputada por um rival, tem de recuar. Se dois pretendentes gostam da mesma mulher, o mais novo deve ceder o lugar ao mais velho - excepto se a rapariga fizer a escolha contrária.


Tin Hinan


Venerada pelos tuaregues como a sua primeira Tamenokalt (rainha), Tin Hinan ainda hoje é designada, por eles, como "Mãe de todos nós". Dizem lendas que, viajando com a sua dama de companhia, Takamat, deixou Tafilalet, nas montanhas Atlas de Marrocos, para se instalar no território desértico de Hoggar ou Ahaggar, no Sul da Argélia. Aqui, não hesitando em recorrer às armas, Tin Hinan uniu vários clãs dispersos e fez deles uma "nação". O seu túmulo terá sido encontrado, em 1920, por arqueólogos, em Abalessa, na Argélia.

Véu


Entre os tuaregues, são os homens, e não as mulheres, que ocultam o rosto. Há três tipos de véu-turbante, com um comprimento que oscila entre os 3 e os 5 metros, deixa à vista apenas os olhos, cobrindo a cabeça, a testa, quase todo o nariz e a boca - "uma zona de poluição e de desrespeito se exposta perante outros". Assim, temos o tagelmoust ou alechcho (azul-índigo), hoje quase exclusivo das classes mais altas; o khent, que pode ser usado em todas as ocasiões e no dia-a-dia; e o agora mais comum echchach (branco, negro ou azul-escuro, de custo e qualidade inferior). Não há dados concretos sobre quando é que os tuaregues começaram a usar o tagelmoust, porque até 1920, segundo várias fontes, era mais visível o tekerheit, véu-turbante de lã branca e riscas de cor, originário da Líbia. Só os homens de classe elevada podem deixar escorregar o véu-turbante, e apenas os que fizeram a peregrinação a Meca o podem remover completamente. De um modo geral, os homens jamais o abandonam desde que o começam a usar aos 18 anos, início da idade adulta, nem mesmo quando dormem. A tinta que caracteriza a maioria dos tagelmoust não é diluída em água, um bem cada vez mais escasso, mas aplicada com pedras em tecido de algodão. A pressão emite partículas ligeiramente metálicas que depois se transferem do véu para o rosto - daí os tuaregues terem ganhado o cognome de "Homens Azuis". Símbolo de masculinidade, protecção contra as tempestades de areia e os "maus espíritos" - mas também, dizem, forma de impedir o inimigo de ler o pensamento -, o véu-turbante nunca é lavado e é usado até que se rasgue. As mulheres, por seu turno, depois de se casarem, apenas tapam o cabelo com um lenço (ekahei). Envergam saias rodadas e blusas bordadas de várias cores, colares e brincos de ouro e prata, e ostensiva maquilhagem que realça sensualidade dos olhos e da boca.

Fontes:The Tuareg of the Sahara (Bradshaw Foundation); Sahara Man: Travelling With the Tuareg, de Jeremy Keenan; Le Voile chez les Touareg (Revue de l"Occident musulman et de la Méditerranée); La Solitude du Poète Touareg (Dominique Casajuz, in: Sentiments doux-amers dans les musiques du monde); Association Sauver l"Imzad; Toumast Press

sábado, 9 de julho de 2011

Niragongo




texto e fotos:manolo


Sem deixar de olhar para a assistência, o pastor fechou com as duas mãos a Bíblia que estava sobre o leitoril e concluiu o sermão dizendo: «Deus seja louvado. Que Deus vos acompanhe. Em uníssono, e de forma melodiosa, a assistência respondeu: Ámen. Começou então a sair ordeiramente do velho barracão feito de tábuas de eucalipto e coberto por chapas onduladas, ferrugentas, transformado em lugar de culto. As crianças, vestindo roupas coloridas, aliviadas como o escape do vapor de uma panela de pressão, eufóricas, atropelam-se nas suas brincadeiras.

Um dos militares que se encontrava na última fila, cuja patente não consegui decifrar, sempre tive dificuldades em perceber as patentes militares, mas que me pareceu ser tenente e responsável pela brigada que nos acompanhará na escalada ao vulcão de Niragongo, disse-nos: «Agora já podemos ir e que Deus nos acompanhe!»

Lá fora, em frente à porta, estende-se um cemitério que mais parece um campo de feijão verde, tenro e viçoso. Os crentes que regressam a casa atravessavam-no por pequenos trilhos pedestres, entre campas e vagens. Não se percebe se se trata de uma plantação de feijão verde com campas e túmulos, se de um cemitério ajardinado com estas leguminosas. É certamente bem diferente dos modelos mais ou menos estereotipados a que estamos habituados e, pelas traquinices das crianças e pela boa disposição dos adultos, de fato domingueiro e Bíblia na mão, vê-se que a sua relação com a morte é mais tranquila, mais lógica, pelo menos mais prática: há, de facto, uma relação mais utilitária com os entes queridos ali enterrados, qual inesperado adubo de hortícolas domésticos.

De um lado, encostado ao muro de pedras sobrepostas que delimita o cemitério, está um «out-door» de uma ONG com uma ilustração naif, a qual incentiva a população a não pactuar com os violadores, não os encobrindo nem os protegendo a troco de qualquer suborno. Trata-se de uma pesada herança da guerra civil que parece não ter fim; do outro lado, um segundo «out-door» mais cuidado publicita uma marca de cerveja com um curioso slogan: «negócio de homens!»

Ali, no sopé do vulcão, espraia-se a cidade de Goma, que cresce à medida que os aldeãos das zonas rurais vão sendo escorraçados ou conseguem fugir dos grupos rebeldes que saqueiam as zonas rurais, regressando depois às montanhas onde se escondem e se constituem como autênticos exércitos.

Alcançar o cume do Niragongo é a nossa missão. A minha mulher e eu queríamos muito fazê-lo, pelo que para isso treinámos caminhando diariamente cerca de 9 quilómetros, em andamento adequado e amena e descontraída cavaqueira como nos sugeriu a médica de família. Estávamos preparados para alcançar um dos vulcões mais activos do planeta, que se encontra a mais de três mil metros de altitude. Não que tenhamos alma de vulcanólogo ou nervos de alpinista, nada disso, mas a subida à cratera de um vulcão activo é sempre algo fascinante: chegar ao cume, encarar de frente o lago trovejante é, sem dúvida, uma forma de realização pessoal.

A patrulha de militares, 9, juntou-se aos carregadores, 3, levando cada um, no minimo, 20 quilos; um deles, já com a sua carga sobre a cabeça ( garrafas de água, mantimentos, tenda...), ofereceu-se para me levar a mochila do material fotográfico. Amavelmente declinei a oferta.
Resolvidas algumas formalidades, segundo me apercebi de índole militar, o primeiro grupo de 4 Rangers embrenhou-se pela floresta dentro, por um trilho de pouca visibilidade e mato denso. O militar da frente levava um GPS Garmin Etrex na mão e todos transportavam metralhadoras Kalashnikov ao ombro. Cerca de um quarto de hora depois nós seguimo-los, igualmente a pé, com os restantes cinco militares e os três carregadores, por um trilho largo onde cabia um jipe; mas à medida que avançámos, cerca de 200 metros mais à frente este estreitou-se por entre a densa floresta. Seguíamos em fila indiana e o líder do grupo com uma catana ia cortando o matagal que teimava em esconder o trilho; seguia-se mais um militar, depois nós, a seguir os carregadores e, no final da lagartixa humana, os restantes militares.

Entre vários sons indecifráveis um silvo, um agitar brusco da vegetação, alguma apreensão e trocas de palavras, poucas, entre militares e carregadores; era perfeitamente perceptível o som do metal da catana a golpear os ramos e a nossa respiração cada vez mais ofegante. À medida que avançávamos, sempre a subir, o trilho tornava-se mais pétreo e enormes raízes atravessavam-no, escondidas pelo matagal, o que nos provocava pequenos desequilíbrios, pequenas quedas até, que mereciam algumas gargalhadas dos nossos protectores. Um dos carregadores desembainhou a sua catana e fez com ela duas varas de caminhar que nos ofereceu com um sorriso, o que melhorou a nossa caminhada. Descansávamos em zonas previstas pelos Rangers, e cada vez mais noutras a nosso pedido.

Depois de 4 horas e meio de caminho, numa das zonas previstas para o descanso, os carregadores colocaram a carga no chão e os militares sentaram-se no que geometricamente formava os cantos de um quadrado; nós, extenuados, sentámo-nos no seu interior. Eu fiz de um tronco tombado o meu assento e debrucei-me para beber água meditando ao mesmo tempo se me restariam forças para levar a cabo aquela ousada caminhada. Os militares trocavam entre si algumas palavras em tutsi, o seu dialecto, e eu, quase sem forças para levar a garrafa à boca, inferiorizado por não os compreender mas impressionado com a capacidade física daqueles homens, de mochila às costas, arma na mão e galochas de borracha, sorria.

Estava eu às voltas com os meus pensamentos, e com os apontamentos também, tentando esquecer-me das fortes dores nos joelhos, quando uma ensurdecedora rajada de metralhadora fez estrondo nos céus; num ápice uma ordem troante mandou-nos deitar de barriga para baixo. Seguiu-se uma segunda rajada, uma terceira, e logo mais duas ou três. A minha mulher prostrada à minha frente, eu, desesperado, rastejei até junto dela e apertei-lhe fortemente a mão como se a intensidade daquele aperto fosse por si só uma linguagem e ela percebesse tudo o que lhe queria dizer naquele momento. O seu olhar terno mas intenso tranquilizava-me, a minha “cara de Inverno”, como ternamente lhe chamo, acalentava-me ; e a sua mão apertada na minha, como nos hieróglifos egípcios em que a deusa concede o seu poder, a sua força e a sua coragem, a um súbdito, dava-me ânimo.

Momentos mais tarde pairava um estranho silêncio e os militares e carregadores, já todos de pé, imóveis, músculos tensos, com alguns gestos reveladores de um certo nervosismo e um olhar fixo e circunspecto, olhavam para o céu como se dele esperassem um sinal divino. Um dos militares proferiu então algumas palavras, quase imperceptíveis, e o resto do grupo descontraiu-se. Um dos carregadores fez-nos um sinal com a cabeça, curto, afirmativo, de que tudo estava bem.

Poucos minutos depois, passadas as emoções daquele momento, prosseguimos e fomos ao encontro dos nossos companheiros que iam na frente, que tinham sido atacados por um pequeno grupo, provavelmente, de uma das forças rebeldes «Mai-Mai», escondidas nas montanhas do norte do Kivu. Empurrados pela fome, circundam as zonas protegidas à procura de comida. Nessa deambulação abatem todo o tipo de animais, inclusive os gorilas, para saciar a fome. Por vezes estes ataques não passam de uma medição de forças, para sentirem o pulso ao inimigo, mas nem sempre as coisas acabam bem.

Estes rebeldes oriundos, na sua maioria, do vizinho Ruanda reivindicam o que dizem ser os seus direitos através do pânico que espalham entre as populações com roubos, violações e assassinatos. Nos últimos dois anos mais de 150 destes Rangers foram assassinados nesta zona «quente» da República Democrática do Congo por estes grupos de rebeldes liderados por homens sem escrúpulos e sanguinários, para quem a democracia se mede pelo poderio militar, pelo terror e repressão.

Volvida hora e meia de caminhada avistámos o cume do vulcão Niragongo, mas alcançá-lo não se mostrava tarefa fácil. Havia uma «estrada» de lava solta com cerca de 300 metros até ao cume, mas com uma inclinação excessiva para as nossas capacidades físicas. Arrastámo-nos praticamente de gatas, com as pedras a fugirem por debaixo dos nossos corpos, o que nos obrigava a retroceder, a escorregar, contra a nossa vontade. Os carregadores passaram tranquilamente à nossa frente. Passámos por algumas fissuras que emitiam lava e, à medida que nos aproximávamos do cume, o ar tornava-se cada vez mais quente e o cheiro a enxofre mais intenso e sufocante. Quando, finalmente, lá conseguimos chegar já os carregadores tinham montado as tendas, inclusive a nossa, e nos esperavam com um sorriso triunfante. Abraçámo-nos todos!

No centro, contido no interior de um cone vulcânico gigante em forma de uma tigela de sopa, podia desfrutar-se de uma visão deslumbrante e inesquecível: um lago de lava activa, a mais de 950ºC, rugia como um avião em descolagem ao mesmo tempo que explodia em repuxos fascinantes de tons de laranja eléctrico. O lago tinha vida! Bombeava, expandia-se, contraía-se, subia e descia, numa movimentação tão bela quanto aterradora. Ficámos tão hipnotizados que nem nos demos conta da chuva torrencial e do vento forte que nos fustigavam.

Durante a noite, em conversa com o tenente, o único que falava inglês, perguntei-lhe quanto ganhava para fazer aquele trabalho. Respondeu-me que 50 dólares mensais. Perplexo, repeti: 50 dólares?
(No hotel banal onde me hospedara, na avenue de la Corniche, em Goma, eu pagava 75 dólares diários).
Perante a minha perplexidade, o militar, meio atrapalhado, justificou-se: «Ganhamos mais porque corremos riscos!»

(Estivemos na região em Outubro de 2010, desde então fomos informados pelos nossos contactos que dois destes militares que nos acompanharam ao Nirarongo haviam sucumbido num ataque de um grupo rebelde).






sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Bazungu






Texto e fotos: Manolo
Local das fotos: Bukima e Goma. RD Congo.


Entrei na palhota de telhado de colmo contornando um peixe seco pendurado, que me surgiu repentinamente na cara, qual espanta-espíritos.


O ancião estendeu a esteira de esparto, levou algum tempo a sentar-se nela, respirou fundo, sorriu, bateu com a mão firme no chão de terra seca que expeliu pequenos suspiros de pó e disse: «Bazungu (branco) senta-te aqui junto a mim». Acedi. Sentei-me na extremidade da esteira e uma fresta de luz que se escapulia pelos buracos da parede, feita de argila e de canas de bambu, resplandecia sobre a minha cara como um holofote numa tramóia teatral; mal via o meu interlocutor , que se encontrava na parte mais recôndita da cabana, numa penumbra quase impenetrável. Ao meu lado um recipiente de casca de abóbora seca estava repleto de vagens de feijão-verde. O silêncio estava imóvel.


- Mandaste-me chamar? Conheces-me? Perguntei para quebrar aquele silêncio que, sem saber porquê, me angustiava. Receava que aquele homem à minha frente estivesse ali uma eternidade a olhar para mim sem nada dizer.
- Conheço-te, és o único bazungu que anda a pé pelas ruas de Goma. Em Goma, o bazungu não se mistura com o mweusi (preto). O que é que procuras?
- Sou um viajante.
- Para viajar basta existir. Retorquiu o ancião, parafraseando Fernando Pessoa, o que me deixou mais perplexo. Ainda por cima, numa linguagem cuja semântica parecia uma mistura fina de português e de francês, com uma pitada de crioulo.

- Como te chamas? Perguntei.
-Henry Carhakubwa. Bazungu, sabes o que significa Carhakubwa? Limitei-me a dizer que não com a cabeça e o ancião continuou. Carhakubwa significa árvore flexível, que não cai com o vento, mas não é verdade. Estou como o milenar embondeiro que vai ser cortado para se fazer uma estrada nova.

- Henry, que idade tens?
- Muito tempo. Já passei por muitos tempos: tempo de fome, de colheitas, de perca, de ganho, de guerra, de sofrimento, de amor, de doença, de sol, de chuva, de doce e de amargo, demasiados tempos. Se eu te dissesse que tinha 110 anos respondias-me que era muito tempo, se eu te dissesse que tinha 70 anos respondias-me que ainda era novo. Vós, os bazungus, sois reféns do tempo. O tempo foi uma invenção da morte.


-Tens medo da morte? Desafiei-o.
Tenho medo é da mentira. Aos africanos é a quem mais se mente. Maltratados pelos próprios governantes, difamados pelas agências internacionais, iludidos pelas instituições de solidariedade, roubados na sua inocência pelos evangelizadores; até as organizações não-governamentais lhes dão falsas esperanças, o que ainda é pior. E de que forma reagem? Arrastam os pés, tentam emigrar, pedem, suplicam ou exigem dinheiro com a insolência de quem a ele tem direito, porque aqui, bazungu também é sinónimo de dinheiro; já reparaste que as crianças de manhã não te dizem «good-morning», dizem-te «good-money». Roubar a dignidade da pessoa é a melhor maneira de a manipular.


Os bazungu, aqui em Goma, deslocam-se de jipe de casa para o trabalho, depois para o restaurante, de novo para o trabalho, finalmente para casa. Andam num circuito fechado, têm medo, cheira-lhes a morte, mas convivem bem com a mentira. E tu? No meio dos pretos, nas ruas que fedem, nas encruzilhadas da sobrevivência, o que procuras?
- Só conhecendo podemos aprender a respeitar as diferenças, respondi-lhe, e, sem o deixar ripostar, perguntei-lhe: como é que falas tão bem português?

Por um espaço de tempo (já não me atrevo a quantificar) o silêncio voltou a ficar imóvel. A noite caía sobre a aldeia de Bukima, a escuridão ganhava um tom avermelhado e no ar pairava o cheiro dos braseiros. Do meio da púrpura, Henry começou a falar.

- Em 9 de Novembro de 1955 comecei a trabalhar nos Caminhos-de-ferro de Benguela, nos carregamentos de cobre que vinham do Katanga, era uma quarta-feira. Foi aí que conheci portugueses e comecei aprender...
- 9 de Novembro de 1955? Foi o dia em que eu nasci, que coincidência! Atalhei com os olhos esbugalhados.

- Coincidência? Bazungu, não há coincidências. Existe um provérbio africano que diz: o estrangeiro só vê aquilo que sabe. Tudo na vida tem um significado, não podemos parar o destino nem o dominó das consequências. É tão certo como o tempo em que não chegamos à próxima Primavera.

A conversa ia longa e eu estava a mais de 2 horas de jipe de Goma. Despedi-me de Henry, dizendo-lhe que na manhã seguinte regressaria a Bukima para ir ao Virunga fotografar os gorilas e continuarmos a nossa conversa, talvez ele me revelasse porque me mandou chamar.

- Amanhã? Bazungu, amanhã, já estarei a viver de outra maneira.

O regresso ao hotel foi de sobressalto, sentia a garganta seca. Durante a noite a imagem de Henry Carhakubwa queimava-me os olhos, a chuva torrencial alimentava-me o pesadelo. E como se fosse telepatia, ouvia a sua voz rouca, qual cantor de blues numa mistura fina de português e de francês com uma pitada de crioulo; lá estava, clara e cristalina como a água da montanha, dentro da minha cabeça.

(- Amanhã? Bazungu, amanhã, já estarei a viver de outra maneira).

(- Não há coincidências...não podemos parar o dominó das consequências).

Pouco passava das 5 horas da manhã, ainda o dia se espreguiçava, quando saí de Goma de regresso a Bukima; passei a enfadonha barreira de controlo, a seguir à estrada do aeroporto, deixei o trilho do vulcão Nyiragongo à esquerda e segui a pista de barro vermelho, passando por aldeias de palhotas com telhados de colmo e de chapa ondulada ferrugenta. Cruzei-me àquela hora com mulheres carregadas de bananas e de filhos às costas, cruzei-me com as «tchikudu» (as pesadas trotinetas de madeira, de tracção humana, que transportavam legumes e cana-de-açucar para o mercado de Goma), vi crianças em algazarra com uniforme escolar, camiões lotados onde as pessoas se misturam e confundem com os haveres, outros com capacetes azuis.

Quando cheguei à palhota de Henry Carhakubwa havia várias mulheres em pranto. Um caixão envolto em tecido escarlate, com cornucópias era carregado por alguns jovens. Num dos lados do caixão, e em dialecto Tutsi, lia-se uma frase feita com caricas de Fanta, de Coca-Cola e de cerveja Primus. Lacrimejando e com a garganta seca, perguntei a um dos jovens o que queria dizer aquela frase. Em francês, respondeu-me:

«Em África, quando um velho morre é uma biblioteca que arde.»




sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Você não é de cá, pois não?

Texto e foto: Manolo


Budem zdorovi !
Na zdorovie!
Os russos, divididos em tribos espalhadas pelas mesas, bridam extasiados à saúde, ao sucesso, à riqueza e ao futuro. Na minha mesa, ao centro, a garrafa de vodka parece uma bola de cristal a adivinhar-me um um futuro incerto, numa viagem vertiginosa sem cinto de segurança nem seguro.
A multidão eufórica entoa um hino de sonoridades agudas, sibilante, estridente.
- Vai mais un copo? Só mais um! À saúde!
- À saúde de quê, de quem?
-Vai! Só mais um não faz mal, não és homem não és nada. Verdade tão irrefutável como a eficácia de um elixir para fazer crescer o cabelo.
Enquanto esta frase batida ressoa na minha cabeça, qual rajada de metralhadora nas paredes vazias de um convento, sinto os meus olhos como que a serem vomitados violentamente das órbitas. É hora de fugir. Pássaros negros rodopiam pelo salão chilreando estranhas cantilenas, as pessoas dançam de pernas para o ar, os copos grunhem como porcos, a entrada do salão aproxima-se e afasta-se num movimento brutal. «Pára, eu quero sair daqui!»
As bacantes tocam pandeiretas e a entrada do salão contorce-se como na dança do ventre. O meu ângulo de visão rende-se aos 45 graus alcoólicos daquela poção druídica, da qual já nada resta na bola de cristal, abandonada no centro da mesa, a sorrir para mim em tom desafiante: «Queres conhecer a minha irmã?»
Os degraus surgem de repente à minha frente como que vindos do nada, sabe-se lá porquê, uma infantaria medonha que apoia milhares de pás eólicas, qual força aérea que me quer decapitar, talvez, uma encomenda expressa de Éolo, o deus do vento, que me refresca a cara mas não evita que eu vá ao tapete na gélida neve.
As casas de Gromovo voam acrobaticamente e com a esteira de fumo que sai das suas chaminés, desenham estranhos sinais no céu, tão estranhos que não os consigo descodificar. A neve queima-me a face e o vapor gélido da noite acalenta-me a dormência, num vai e vem de vómitos ao encontro da deusa da raiva.
Quero gritar de fúria mas não consigo...mas o que eu quero mesmo é regressar ao passado, a St. Petersburgo, onde estive ontem bem quentinho na livraria Boukvoed, na avenida Nevsky Propekt, junto ao palácio de Inverno, perdido horas a fio num oceano de livros, a acariciar-lhe as lombadas, a beijar os títulos...mas não, estou aqui deitado na neve sem me conseguir levantar, qual manta velha enrolada, abandonada, num caos de refegos e volutas, massacrado por pesadelos.
A deusa ri-se de mim enquanto os meus orgãos, em sincronia, definham dentro de mim, Sinto-o.
A noite de repente fica silenciosa. Um grupo de mulheres, das cidades de Saratov e Volgograd, vem na minha direcção. Mulheres lindas, sedutoras cujos rostos alimentam o querer, o desejo, o impulso vital. O que verão em mim com os lábios e os dedos azuis e o gelo a consumir-me a roupa e a pele? O que quererão de mim? Mas é algo insubstancial, as belas mulheres das margens do Volga trespassam-me como um lençol de névoa densa, com se de uma ilha no meio do mar se tratasse, como o bêbado da minha rua -a da Esperança - deitado à chuva, rodeado de água por todos os lados, com o corpo cansado de pescador meio coberto de lixo da enxurrada e o seu fiel amigo, o «Bateira» a fazer jus ao epíteto de «fiel amigo», junto dele, como um farol, faça vento, chuva ou sol.
A minha rua - a da Esperança - também conhecida por rua do endireita, da casa dos caracóis, do Convento das Bernardas, do Chafarix, do José Saramago, viveu no 76 e eu no 28, ou do «Picaroço» o bêbado da minha rua.
Agonio exausto, mergulhado numa noite insegura. É fogo, queima-me, desfigura-me, é a desculpa do mundo ser tão feio, sem esperança, sem rua, sem cão. Será que Saramago se inspirou alguma vez no «Picaroço» para construir as suas personagens? Tantas as vezes o encontrou, aliás, tantas pessoas passaram por ele sem que ele desse por elas, qual ilha absorta, tal como eu agora, rodeado de cristais de neve cujos enfadonhos admiradores do belo defendem que em cada cristal, em cada floco, há a assinatura de deus.
Eu ali prostrado, mergulhado no meu próprio vómito.
As casas de Gromovo aterram, umas atrás das outras, com a cadência dos aviões no aeroporto de Frankfurt. À medida que a minha torre de controlo cardíaca desfalece as familias saem das casas, avós, pais, crianças, todos ao meu redor. Só vejo pernas...mal as vejo.
Só pode ser o céu. O inferno não é assim. Afinal o céu existe e é branco. É claro que estou no céu, no departamento celestial do Delirium Tremens, o forte odor a substâncias psicoativas, a luz, tudo leva a crer que sim. Um homem vestido de branco, as imagens e as formas destorcidas regressam à minha mente, à minha frente, vejo-o perfeitamente, cabelo de ouro, olhos azul safira, penetrantes, cruéis, parecendo julgar-me pelo meu rubor facial, pela minha ataxia e insufciência respiratóra. Fala de forma imperceptível mostrando-me os dentes de ouro.
É o druida! Este filho da puta não pára de me perseguir, está visto que este céu é dele e insiste na poção, agora adminsitra-me vodka nas veias, por via intravenosa o efeito é mais rápido, já não chega o que passei lá em baixo, maldito sejas!
- Você não é de cá, pois não? Ontem à noite esteve muito mal... dizia-me o homem de branco enquanto...enquanto ajustava o doseador da garrafa de soro.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Crime em Barcelona


Texto e foto: Manolo

O tempo parece perdido. As ruelas deixaram-se ficar por ali. Pararam.O bairro La Ribera esconde-se no tempo. E as ruas, umas por detrás das outras, protegem-se e acariciam-se nos «rendez-vous» dos estreitos cruzamentos sombrios, misteriosos mas românticos. Na Carrer de Sant Francesc de Paula, o Palau de la Música Catalana ergue-se como uma catedral, Lluís Domènech i Montaner, o seu arquitecto, assim o idealizou: uma catedral para os amantes da música. O Palau hipnotiza o visitante e prende-o como devoto a contemplar o céu.

Sergi aproveita as réstias de sol de fim de tarde, feixes ténues de luz que se esquivam entre os telhados, autorizados pelo Palau para dois dedos de conversa com os seus botões, à volta de um carpaccio de salmão com molho de lima, no El Bitxo, na Verdaguer i callis, uma ruela que se subjuga com orgulho ao Palau.

Sergi é um jovem e promissor repórter, ambicioso, sempre à procura das notícias, compensando a verdura dos anos com a irreverência e a avidez com que as procura. Recruta os seus informadores no «bas-fond», na policia, nas hospedarias, nas «casas de passe», nos circuitos da droga, no submundo da vida. Solitário, o seu jovem aspecto é afectado por algumas fragilidades narcísicas, como uma acne acentuada.

Bebe o último trago de vinho quando o telemóvel toca e ouve do outro lado:« um tipo apareceu aqui na esquadra e confessou ter assassinado a mulher na Carrel del Pi, num prédio junto à tasca «La Pineda», o inspector Mejias já foi destacado para lá, saludos chico». Apressou-se a pagar e saiu em direcção ao local do crime.

«Os abutres farejam a carne podre à distância», foi desta forma, e com um sorriso tipicamente chinês, que o inspector Mejias o cumprimentou.
- Boa tarde também para si, inspector. Confirma-se o crime? Perguntou-lhe Sergi, indiferente ao comentário.
- Quatro facadas no peito meu caro amigo, quatro. Respondeu-lhe o inspector.
- Crime passional, portanto. O motivo qual foi? Ciumes? Uma traiçãozita?
- O que é que lhe parece? Retorquiu-lhe o inspector.
- O que é que o homem faz?
- É sexólogo.
- Sexólogo? E matou a mulher? Perguntou Sergi, muito admirado, enquanto rabiscava umas notas no Moleskine.
- Bom furo, hein? Não é todos os dias que um sexólogo mata a mulher, está com sorte. Já estou a ver o titulo do seu artigo: «Sexólogo assassina mulher por ciumes», ironiza o inspector.

O ciúme é o rastilho em 57% das agressões entre os casais, de acordo com uma pesquisa realizada por universitários de 40 países, começa por explicar Sergi. Enquanto o ouve, Mejias, sem desvanecer o sorriso, acende um cigarro. E Sergi continua: Na perspectiva psicanalítica de Freud, a explicação para os assassinatos pode dever-se às forças inconscientes que motivam o comportamento humano. Freud, baseado na sua experiência clínica, acreditava que a fonte de perturbações emocionais residia nas experiências traumáticas reprimidas nos primeiros anos de vida. Ele acreditava que a personalidade se forma nos primeiros anos de vida, quando as crianças lidam com os conflitos entre os impulsos biológicos congénitos ligados aos estimulos e às exigências da sociedade. Talvez o assassino seja vítima do complexo de Édipo...
Alguém afirmou que «todos nós somos ciumentos em maior ou menor grau. A diferença está em como cada um encara este sentimento», rematou Sergi.
Muito interessante, ripostou o inspector Mejias, encaminhando-se para a pequena multidão de vizinhos, comerciantes e transeuntes curiosos que se juntaram à porta do prédio.
Sergi começou a indagar os vizinhos.« Não quero acreditar que o sr. Josep tenha assassinado a mulher, parecia ser um homem tão calmo», dizia a vizinha do 4º andar; a do 2º, por sua vez, assegurava que as discussões eram constantes:« ouvia-o a gritar muito alto, pobre senhora»;« eu não conhecia a senhora, nunca a vi, devia sofrer bastante, era sempre ele que fazia as compras», esclarecia a mulher de um comerciante; a viuva do andar do lado não conhecia a vítima, mas afirmava convictamente:« o homem era doido, várias vezes me assediou, acho que era professor de sexo...». Sergi sorria e tomava nota de tudo.« Meu querido, tens um sorriso muito bonito mas deves tratar dessa cara, faz uma máscara de leite e arroz cozido...», dava-lhe de conselho uma septuagenária. Outra, contrapunha:« o melhor é feijão pelado com leite de amêndoas, foi uma médica que mo disse». « Água oxigenada é que é, desinfecta tudo», rispotava com autoridade um policia.
Sergi agradeceu os conselhos e afastou-se.

- É estranho, ninguém conhecia a vítima. Ela é loira ou morena? Perguntou a Mejias.
- Isso é relevante? Perguntou o inspector.
- Não, não...posso ver o corpo?
- No 1º andar, meu caro.
Sergi entrou no apartamente, apreensivo, Mejias seguia-o.
- À esquerda, nessa sala à esquerda, orientava o inspector.
Sergi entrou. Fixou o corpo durante alguns segundos, deixando-se cair de seguida num pequeno sofá de tecido, estarrecido, tolhido por uma mistura de sobressalto e de perturbação; ficou pasmado perante o olhar imutável da «boneca de silicone», morena, olhos verdes de vidro, lingerie branca, ali no chão, golpeada sem apelo nem agravo no peito, onde sobressaiam partes do esqueleto em aluminio.
O inspector Mejias, de pé, encostado à ombreira da porta,com o seu sorriso tipicamente chinês,perguntou a Sergi que continuava imobilizado.
- No tempo do «seu» Freud já havia material deste?

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Nunca vi um lince


texto: manolo
foto: caoazul.com


Esta crónica, não pretendendo revestir-se de um carácter autobiográfico, retoma, no entanto, fragmentos da minha memória já longínqua. Se para uma narrativa de vida não me sinto neste momento preparado, não deixo de evocar os meus tempos de menino quando lia avidamente as apaixonantes aventuras de Tintin, em especial o «Tintin no Congo», ou, mais tarde, as proezas do corajoso capitão Blake e do sagaz professor Mortimer. Foram elas que me incutiram o gosto pela aventura, pela natureza e a vontade inabalável de conhecer o mundo. Haveria de ser o todo-o-terreno o veículo para a realização desses «sonhos-desejo», que se foram entranhando em mim, lentamente, envolvendo-me de tal modo que influenciaram determinantemente a minha personalidade.

Depois, já adulto, veio uma experiência épica com um Portaro de um amigo meu, apicultor, na Serra da Malcata, que me relatava as suas aventuras «no reino do lince» com um inexplicável brilhozinho nos olhos, já lá vão mais de trinta anos.

Chovia copiosamente, o meu amigo Rui preocupado com as suas colmeias e eu em fotografar, quem sabe, com um bocado de sorte, um lince. Nunca vi nenhum. Só os tinha visto embalsamados, «empalhados», em adegas da região, por cima da lareira de um notável da edilidade local " é um troféu de caça são raros", na casa dos guarda-florestais, no café central, na prateleira mais alta onde as garrafas de licor Beirão e as de Macieira exibem a sua disciplina perfilada e orgulho nacional face à timidez solitária de uma Vat 69. Na mesma prateleira onde, ao centro, está a moldura com o emblema do Benfica trabalhada em pequenos fragmentos de vidro e a figura em barro do Zé Povinho a fazer o manguito do «Queres fiado, Toma!», ladeadas de andorinhas pretas de Barcelos «coladas» à parede, pintada de um verde brilhante: e eu sem saber que se pintavam paredes daquela cor.

(Você vai tirar retratos aos gatos? Devia era levar uma caçadeira, esses ladrões comem-nos os coelhos todos)

Aquela noite revestiu-se de elementos notoriamente fantásticos, encandeando uma série de episódios estranhos e perturbantes, um número quase cabalístico de ficções e realidades que se me entranhou como um vírus. O poeta Fernando Pessoa dizia: «primeiro estranha-se, depois entranha-se». Agustina Bessa Luís chamou-lhe uma espécie de «vício de alma».

Chovia copiosamente.

(Você vai tirar retratos aos gatos? Com este vendaval? Tá bem tá)

Copiosamente. O melhor chefe de redacção que tive, o saudoso António Alçada Batista, «descompunha-me» quando utilizava esta forma obtusa de adjectivação.

(Você vai tirar retratos aos gatos? Chove a rodos, homem! Beba um bagacinho e fique aí, que hoje dá o Dallas. Zé, é hoje não é?)

O Zé, ao balcão, dizia que sim com a cabeça enquanto passava o pano pela pedra mármore preta, pingada de mágoas anónimas, euforias desconcertantes, ilusões e desilusões e outras bebidas.

Seguimos o conselho, mas não ficamos para ver o «JR» a preto e branco.

(Aquele bicho é mesmo ruim)

Já passava da meia-noite, serra adentro, o meu amigo explicava-me as potencialidades daquela segunda alavanca das mudanças, mais pequena, mais robusta, mais decisiva. O Portaro com caixa aberta de madeira conhecia os sítios mais recônditos da serra. Uma mãe javali escapava ao súbito luar dos faróis com um carreirinho de crias entre o matagal denso, quase impenetrável. A chuva intensificava-se e a Malcata vestia-se de breu, envolta em trevas, sombras frenéticas e sibilantes.
No olhar do meu amigo apicultor a angústia de perder abelhas-mestras, abelhas-obreiras e zangões. «Uma colmeia tombada...no Inverno perdem-se muitas abelhas»...e, num ápice, à nossa frente, num grande palco, que cena: um raio sobe (sim, os raios sobem, não caem) fulminante sentencia o enorme carvalho que protege o apiário, rachando-o ao meio, um estrondo, uma luz intensa, apocalíptica, pedaços de árvore, fragmentos de vidro, pedaços de colmeia. Há olhos de felideos cintilantes por todo o lado, que nos miram espantados de todas as direcções, garrafas que tremem nas prateleiras, andorinhas que se tranformam em morcegos, rainhas, operárias e zangões jazem sob a lama e a chuva cada vez mais intensa.

(Não te atrevas a escrever copiosamente)

Assustado o Portaro foge para a direita, resvala e cai num buraco dissimulado por uma urze. às voltas na labuta para o tirar do buraco, o meu amigo lembra-se de que dias antes se tinha esquecido ali, nquele mesmo local, junto às colmeias, de uma corda, «era uma corda grossa de marinheiro, temos de a encontrar, é a única safa que temos», gritava-me o Rui. A sua voz chegava-me trémula e interrompida pela cadência alternada das pequenas quedas e das tentativas de reequilíbrio para resistir à enxurrada que levava tudo o que encontrava à frente.
As buscas mostravam-se infrutíferas, desesperantes, os braços e os joelhos enterrados na lama, só já comunicava com o Rui, tal como as abelhas, através de toques, movimentos, sons e cheiros. Não nos ouvíamos. O cheiro a madeira queimada, os corpos molhados na enxurrada, sem forças, como as rainhas,operárias, zangões, quase como «linces empalhados»...

Subitamente, um brisa gélida, angustiada, atinge-nos o peito como uma lança, acompanhada de um fedor sulfuroso. Uma luz ténue surge do carvalho jazendo em cinzas, e desta ergue-se um vulto, um rosto magro de mulher de pela branca, quase transparente, manto branco, sem pés, que se desloca como se flutuasse. E nós, de joelhos, siderados...

- É ela!
- É ela quem, Rui? O que é que se passa aqui? Gritava eu, quase em silêncio.

(Ó diabo, você também viu a pequena? Tirou-lhe o retrato? Zé, estás ouvir isto?)

O Zé, ao balcão, dizia que não com a cabeça: " Não gosto de falar nisso. Tenho muito respeito por essas coisas"

O vulto deslocou-se para junto de umas pedras e iniciou um movimento circular. Tal como quando uma abelha quer informar as suas companheiras de colmeia que encontrou uma fonte rica em néctar ou pólen, inicia uma dança circular sobre a descoberta.

O Rui gatinha desesperamente na sua direcção, e à medida que se aproxima das pedras o vulto recua e esvaece-se até desaparecer por completo. O Rui tropeça na corda de marinheiro.

-Encontrámos a corda, foi ela!
- Rui explica-me isto. Quem é ela?
- Não sei, já ouvi falar qualquer coisa...parece que foi morta por um raio, não sei, vamo-nos.

(Ó diabo, você também viu a pequena?)

Perante a minha incredulidade, o meu amigo Rui prendia um pequeno tronco à roda da frente com a corda de marinheiro e, de cada vez que o Portaro progredia meia roda, desatava e tornava atar o tronco. Chegámos a casa já raiava o dia, o Portaro ficou a dormir no alpendre e nós, ficamos a contar um ao outro o que já sabiamos mas, nunca vi um lince.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O Desertor


Texto: Manolo
Foto: Jorge Soares



A chuva cai miudinha. As luzes de natal das Galerias Lafayette Haussmann parecem convencer-nos de que vivemos no melhor dos mundos. O meu, infelizmente, desmoronou-se.

A «Chemin», a minha eventual editora, não aceitou publicar o romance que andei a escrever durante o último ano e meio. Francine, a minha namorada, acabou a relação comigo - por telemóvel - porque no último ano e meio não lhe dei a atenção que ela achava que merecia. Concordei.
Esta manhã não participei na habitual reunião semanal dos quadros da empresa e entreguei a minha carta com o pedido de demissão ao próprio presidente.

Nessa carta, eu referia que depois de quase 25 anos de total dedicação ao jornal, e à empresa, onde, todas as semanas, na habitual reunião ele pôde constatar o empenho e o entusiasmo que dediquei à redacção, quase 24 horas por dia, participando em projectos, ideias, entrevistas, investigações, inovações, tanta coisa...,tanta coisa que me fez passar ao lado de outras tantas igualmente importantes, como o amor, a familia, os amigos...e, porque não, eu próprio. Fui, como o presidente tantas vezes disse, uma «máquina», consciente e produtiva, de entrega total a este jornal.
Hoje, na habitual reunião semanal, o presidente deu pela minha ausência, pelo meu silêncio. É verdade, não estou doente, não ando em reportagem, não faltei. Desertei!
Os meus amigos desaconcelharam-me; a minha ex-mulher diz que eu sou um irresponsável sem consideração pelo ordenado que tenho; os meus vizinhos, perante o quadro de desemprego, julgam-me severamente. Pode ser que todos tenham razão, mas eu quero desertar, preciso de o fazer!

Na reunião de hoje, pela primeira vez em tantos anos, estarei ausente, melhor, estarei presente, mas de forma diferente: «estarei» naquela cadeira vazia onde nem uma bomba interromperá o meu silêncio.
Ainda não sei para onde vou, mas para onde for quero ver a terra a namorar com a lua; o sol a correr no astro até cair de cansaço ao final do dia, tocar nas estrelas como o dedo, uma a uma; quero ouvir o resfolegar dos cavalos, o bafo do vento a lamber-me a cara; quero tornar-me um ser improdutivo cujo espírito errante pára no detalhe impensável.
Para os que ficam, especialmente para o presidente, desejo que continue a seguir atentamente a bolsa, as audiências, as vendas, a verificar a cada dia os mapas e as curvas de crescimento.
Mais tarde, bastante mais tarde, a sua fortuna será incomparável, a minha será outra. De qualquer maneira, no destino final que a todos nos está reservado, a seis palmos e meio abaixo da terra, nem a sua nem a minha nos servirão para nada.

Enquanto as luzes de natal das Galerias Lafayette Haussman insistem em nos alimentar a esperança, a minha esfuma-se entre as pessoas que, de um lado para o outro, com a ancestral estratégia da formiga, e numa movimentação que parece ter sido ensaiada até à exaustão, parecem felizes transportando pacotes e sacos, presentes para os outros e para si próprios. As crianças fogem do pai natal, os vendedores de castanhas assadas perfumam as ruas e prometem aconchego. Os amantes, parados, olhos nos olhos, despedem-se em silêncio e escondem a mágoa da separação com as abas dos guarda-chuvas. O Natal não propicia as relações proibidas, proíbe os encontros, é uma época em que o pensamento, como uma velha engrenagem, mói e remói a vontade reprimida, a lembrança dos bons momentos. É o regresso à realidade, à familia, às contas para pagar, aos presentes hipócritas, à falta de carinho quando ele é preciso e não pode ser partilhado.

Continua a chover, agora com mais intensidade, e dói-me a cabeça. Entro na farmácia da L'Opera Mogador, compro um pacote de aspirinas e engulo duas a seco, dirijo-me de seguida para a livraria L'Astrolabe, de livros de viagens, que fica ali perto, na rua de Provence, para dar um abraço de despedida ao Remy.
- Então vais-te embora assim? Sem mais nem menos?
- O que fico cá a fazer?
- E a Francine? Fiquei calado.
- Porquê para a República Centro-Africana?
- Sei lá. África é como um alvo e quero acertar bem no meio...talvez me junte ao Comité Internacional da Cruz Vermelha, que acompanha a situação humanitária, é uma ideia. Sabes que a República Centro-Africana é um dos países africanos com maiores índices de mortalidade até aos cinco anos e nas mulheres? Estima-se que em cada semana morram perto de 420 crianças nos confrontos entre as forças governamentais e os grupos rebeldes.
- Merda de mundo. Não há nada que eu possa fazer para...?
- Podes. Arranja-me um bom mapa da RCA.
- Quando partes?
- Amanhã. Tenho voo directo da Air-France para Bangui.
Remy beijou-me, abraçou-me e sussurrou-me ao ouvido: - és o tipo mais teimoso que conheço. Ao mesmo tempo batia-me com o mapa na nuca enquanto tentávamos disfarçar as lágrimas.

Quatro dias depois.

A pancada violenta com a bota na região lombar fez-me entrar naquele calaboiço assustador de forma pouco formal. O telemóvel caiu-me do bolso e, quando me estiquei para o apanhar, a mesma bota esmagou-me a mão. O militar apanhou o telemóvel, sorriu e guardou-o no bolso da camisa.
O calaboiço era pequeno, não tinha janela nem luz. Entre as frestas das tábuas que faziam de porta penetravam farrapos da claridade frouxa do crepúsculo, intermitentes devido às sombras provocadas pela movimentação dos militares que pareciam gritar uns com os outros.
- Fomos condenados à morte.
A afirmação proveio de um dos cantos da divisão. Não me apercebi que havia ali mais alguém. O homem estava sentado, parecia jovem, cerca de 30 anos, e tinha uma ferida feia na testa resultante de uma coronhada.
-Quem és tu?
- Sou um condenado à morte.
- Porquê?
-Porque tenho um passaporte francês.

Vincent é francês, e vivia na Guiana francesa. Nos finais dos anos 80 esteve na República Centro-Africana para completar a sua tese sobre a doença do sono. Especializou-se nesta doença, também conhecida por tripanossomiase africana, e alguns anos mais tarde, regressou como especialista para estudar e para tentar novas descobertas sobre as três variedades de moscas tsé-tsé e sobre o papel destes insectos no transporte do parasita causador da doença (o Trypanosoma brucei).
No momento em que chegou sorridente, com o passaporte na mão, as autoridades tinham interceptado um importante carregamento de armas ilegais, de origem francesa, que teria como objectivo cair nas mãos de uma facção rebelde. Apanhado na confusão, o jovem médico foi interrogado e violentamente agredido, de que resultou um estado de afonia total. Como não conseguia falar, apenas chorar, foi considerado espião não colaborante e, consequentemente, condenado à morte.
Vincent percebia razoavelmente o dialecto sango, pelo que se pôde aperceber que lá fora decorria o meu julgamento.

-És jornalista?
- Como sabes?
- Entendo o que dizem...Estás aqui porquê? Perguntou-me com a voz trémula.
- Sou jornalista sem patrão e um escritor sem editora. Escritor...tenho um romance na gaveta.
- E de que tratava o teu romance?
- Era a história de um casal de jovens em que ela acabava por se apaixonar pelo pai dele. Aí começava uma triangulação amorosa, perigosa, em que ela se dividia de forma manipuladora entre a paixão, o carinho, a ingenuidade do filho e a perversão do pai. Tudo isto condimentado com uma verdadeira guerrilha psicológica, episódios do dia-a-dia, reflexos do bem e do mal, álcool e drogas. Ela revelava-se manipuladora, sem escrúpulos e até devassa, como uma das piores vilãs do Antigo Testamento, a rainha Jezebel. Mais tarde, encontraram-na morta...
Enfim, uma história que não convenceu a minha editora.

(o silêncio fez-se ouvir)

- Eles odeiam jornalistas...eles odeiam toda a gente. Desabafou Vincent batendo com a cabeça na parede.

Fui interceptado por uma patrulha, na bifurcação de Sibut, quando me dirigia para Kaga Bandoro, onde se encontra uma das 3 subdelegações do Comité Internacional da Cruz Vermelha. O militar que me interpelou só falava sango, tentei explicar que era voluntário da Cruz Vermelha , mostrei o logótipo, mas quando me revistaram e encontraram a minha carteira de jornalista, o militar não teve contemplações e tratou-me como se eu fosse um assassino.
Na sombra do conflito armado, desencadeado entre as forças rebeldes e o governo, milhares de civis foram mortos e estrupados, as casas e as lojas saqueadas. As acusações de crimes sexuais são detalhadas e substanciais.

A alvorada irrompeu com a algazarra dos militares, num caos feito de ordens, gritos, movimentações e gargalhadas que exalavam violência e ódio. Percebia-se pelo manuseamento, pelo respirar metálico das AK-47. O ferrolho da porta rolou, eu e o Vincent demos as mãos. Tremíamos. O primeiro militar a entrar no calaboiço, com um pontapé certeiro nas nossas mãos, desfez aquele enlace de medo e cumplicidade.
De seguida, puseram-me fora do casebre de forma agressiva. Vincent continuou lá dentro. Ao tentar pôr-me de pé, deparei-me com aquilo que parecia ser um pelotão de fuzilamento.
O militar que me roubou o telefone, me deu o pontapé nas costas e me esmagou a mão leu-me em voz alta, em dialecto sango, algo que eu não entendi mas que presumo ser a sentença.
Em menos de 24 horas houve julgamento, sem direito a defesa, e foi preferida a sentença. Aqui a (in)justiça é célere. Após a leitura do veredicto o pelotão assume uma postura mais formal, os soldados dispõem-se em posição de disparo e colocam-me na frente do pelotão, a cerca de dez metros.

Estou perante as famosas «Kalashnikov» AK-47, projectadas pelo general russo Mikhail Kalashnikov, a arma mais traficada no mundo. Pouco usuais em fuzilamentos. Mas em tempo de guerra não se limpam armas, não é verdade?
Onde estão as espingardas com uma só bala? Qual destes matadores receberia uma arma apenas com um bala falsa?

A coragem não existe. O medo é o verdadeiro motor dos actos heróicos. Mark Twain escreveu que a coragem é a resistência ao medo, o dominio do medo e não a sua ausência. Para mim, estar à frente de um pelotão de fuzilamento com serenidade, sim, estou muito calmo, não é um acto de coragem ou de heroísmo, é o reflexo do medo. O pavor relaxou-me. Recordo, nestes últimos instantes da minha vida, fuzilamentos famosos como o do poeta espanhol Federico Garcia Lorca, o do Imperador Maximiliano quando a monarquia foi derrubada no México, os «famosos» fuzilamentos de Goya. Mas porque não me lembrei disto? De escrever um romance que incluísse fuzilamentos, códigos, enigmas, chaves de ouro maciço que abrem portas inexistentes, sinais divinos, as pessoas iam gostar, a minha editora ia adorar...

O militar aproximou-se de mim e estendeu-me um maço de cigarros. O último desejo?

(Mas tinha deixado de fumar, fazia-me mal)

O militar dá uma ordem, o pelotão fica em sentido. Outra ordem, o pelotão aponta as armas, outra ordem...
Subitamente, o processo é interrompido pelo «Magic Time», de Van Morrison, do som polifónico do meu telemóvel que continua no bolso da camisa do militar que comanda as operações.
O pelotão de atiradores soltou uma gargalhada em uníssono. O militar, irritado, dá uma ordem e o pelotão regressa à posição de «à vontade». Tira o telemóvel do bolso, estende-mo e desenha o sorriso mais cinico que vi nos meus 45 anos de vida.

- Parabéns meu querido. é a Francine, estás a ouvir-me? Fui ter contigo ao jornal, disseram-me que te tinhas despedido; encontrei o Remy, disse-me que foste para África. Tenho tantas saudades tuas, não posso viver sem ti, regressa...fui uma parva...não podia deixar passar o dia do teu aniversário sem te dizer isto...e tenho uma prenda para ti: a editora escreveu-te uma carta, quer publicar o teu romance, imagina, ...diz qualquer coisa, por favor...
Bip...bip...bip...bip...bip