sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Obituário da razão



Texto e fotos: Manolo



A decisão tinha sido tomada entre dois, três, quatro … ou mais alguns «shots» de aguardente de medronho: e não era fácil. Além disso, não havia consenso entre os lobos do seu cérebro, faço, não faço, pois era uma daquelas decisões que … dava pano para mangas. Talvez fosse mais fácil fazer psicanálise, mas aí surgia um ónus: um homem expõe-se, conta-se, enfrenta a violência do «despir-se» perante o Outro. Não é a mesma coisa do que falar sozinho, não se trata de um acto solitário de introspecção, como se se estivesse na casa de banho, qual local de solidão por excelência, onde fazemos o que não pode ser feito perante outros, tal como se passa com certos pensamentos. Não, na psicanálise estava mais exposto que as entranhas de um porco num matadouro. O psicanalista, atrás do sofá, reduz o diálogo ao mínimo: «hum» ..., «sim» ..., «pois», não comenta, não teoriza, aparentemente não nos apresenta soluções: não, a psicanálise não era a solução!
Portanto, a decisão estava tomada, Jonas decidiu suicidar-se.

A questão era saber como, pois se é verdade que «todos os caminhos vão dar a Roma» também não é menos verdade que há uns mais curtos do que outros. A morte não o assustava, mas o caminho a percorrer, o caminho da cruz, esse amedrontava-o. Teria que pensar numa forma rápida e praticamente indolor, coisa que não deve existir. Ao fazer uma tentativa de concentrar os pensamentos em algo que queria que acontecesse esta revelar-se-ia infrutífera, pois o que imaginava ver era deveras aterrorizador.
Mais uma «mosquinha», xô Zé.
Ó amigo Jonas, vá para casa descansar, por hoje já chega, não se zangue comigo, mas eu já não lhe sirvo mais nada. Até já estou arrependido de lhe ter servido tanto, ainda pode ser atropelado por algum carro... e depois isso é uma chatice!
O atropelamento era, de facto, uma hipótese. O estado de sistemática embriaguez tornava-lhe clarividente que um atropelamento podia ser uma excelente solução.


Jonas fez parte integrante  de um “projecto de reorganização industrial da sua empresa que visava a competitividade com vista a assegurar o futuro da empresa”. Foi despedido. 
Os seus pais educaram-no numa religião onde um dos princípios era dar aos filhos nomes bíblicos. Aos 18 anos emancipou-se, fugiu de casa e «exilou-se» num daqueles bairros típicos de Lisboa onde, antigamente, os putos jogavam o porta-a-porta com cascas de laranja, mas não se conseguiu livrar do nome. Homem culto mas avesso à ostentação do saber, considerava que cultura era uma forma de nos tornarmos melhores pessoas, tanto em relação a nós próprios como em relação aos outros. Quando sóbrio concordava com a definição de Edward Tylor, segundo o qual a cultura é «aquele todo complexo que inclui o conhecimento, as crenças, a arte, a moral, a lei, os costumes e todos os outros hábitos e aptidões adquiridos pelo homem como membro da sociedade». Já quando ébrio, a maioria do tempo, era um acérrimo antagonista desta definição.

Em seu socorro chamava o grande Fernando Pessoa, que foi dos poucos, talvez o único, que aprendeu a manejar a inteligência «em contra mão» com as tradições nacionais, lutando contra os espíritos sebásticos, perguntando então: «O que é ele fazia? Sabem? Digam-me!»
Os reformados, dispostos em quadrados nas mesas da taberna do xô Zé, absortos no jogo do dominó, não lhe respondiam, tal como na psicanálise. E Jonas prosseguia: «Criou o melhor da nossa poesia, pigarreando e tossindo, provavelmente peidando-se!» Os jogadores do dominó reagiam com um sorriso disfarçado, um olhar furtivo. «Sim, o nosso grande Fernando Pessoa morreu com um pigarro de alcoólico que se ouvia a léguas. E sabem porquê? Porque na verdade estava persuadido de que a morte não existia.»
«Mas esse gajo não era roto?», ouviu-se algures pela voz de um dos jogadores, voz frouxa e cansada. De seguida, uma gargalhada geral que contagiou o próprio taberneiro.
«Ignorantes! Sabem o que Fernando Pessoa achava da vossa moral? Que se tramassem os falsos moralistas, pois não comungava da mesquinhez nacional, aceitava o amor físico entre o mesmo sexo como uma serena e bela abstracção. Não debitava “postas de pescada” de cultura ou, de moral, no entanto, irradiava de si o culto da pura arte. E cada dia que passa, maior é a glória deste homem, sem dúvida alguma um dos maiores poetas da literatura portuguesa. Ó xô Zé, sai mais uma “mosquinha”».



Recordando a história do primitivo Jonas, conta-se no livro sagrado que o profeta israelita, da tribo de Zebulão, foi chamado a pregar a palavra de Deus em Nínive mas fugiu em direcção a Társis, desobedecendo ao chamamento divino. Como pode um homem imaginar poder escapulir-se aos planos do Senhor que tudo vê? Em consequência desta sua desobediência o barco da fuga teve um naufrágio e Jonas foi engolido por um grande peixe. Miraculosamente, Deus manteve-o vivo durante três dias no estômago do hospedeiro, período suficiente para que o profeta missionário percebesse que tinha agido como um idólatra e retomasse o caminho da obediência.
Jonas conhecia esta história de cor e saltado.
Ó xô Zé, tenha pena de mim e sirva-me mais uma «mosquinha», olhe que eu já estive dentro de uma baleia três dias e três noites sem poder beber nada, é obra!
Bebia água do mar, que lhe fazia muito bem, retorquiu o dono do tasco enquanto o ajudava a levantar-se, e, ao mesmo tempo, o metia porta fora.
Vá lá homem nem sei o que lhe diga ... tem que ir para casa.
Jonas resistia, insultava o taberneiro, referia as liberdades conquistadas e, de alma amarrotada, lá era expulso ouvindo o bater das duas portas altas da taberna atrás de si como se fosse uma salva de expulsão. Sem se aperceber do declive dos dois degraus que levavam ao altar da «mosquinha», via-se num ápice na rua, excluído sem apelo nem agravo. E pior, expulso por quem durante algumas horas parecia o seu melhor amigo.

Encostado à parede, bebido até à inconsciência, a rua deserta, contudo, algumas luzes se acendiam ouvindo-se o habitual: «É sempre a mesma coisa». Enquanto algumas ratazanas esperançadas vagueavam de um lado para o outro, Jonas quedou-se a olhar atentamente para um poça de água que lhe reflectia a imagem distorcida, qual visão de cataratas, ao mesmo tempo que via algo insubstancial a pairar, qual nuvem suspensa no céu a fitá-lo.
Tal visão parecia ser a sua consciência, que lhe sorria, ao mesmo tempo que o inquiria: «Que procuraste toda a tua vida? A solidão? A morte?»
Jonas enfureceu-se momentaneamente, a consciência, ou o peso dela, conseguia instilar-lhe uma raiva ao mesmo tempo contida mas tão profunda. Por causa dela não deu certos passos, não calcorreou o caminho da cruz, fez tudo ao contrário, foi ainda por causa dela que esteve três dias e três noites na barriga de um grande peixe, que esteve sempre no lado errado do amor e da vida.
Conheceu muitas mulheres e alguns homens mas nunca ficou com ninguém (ou nunca ninguém ficou com ele), fantasiou adultérios e traições, arrependeu-se do que fez e do que não fez, viveu sem ter vivido.

Nisto inclina-se para a frente, num gesto brusco, e deixa de se ver reflectido na poça de água, a consciência parece fugir-lhe no fio de água que vai em direcção à sargeta. Regressa à mesma posição e volta a mirar-se, parecendo ver regressada a consciência, com um cálice na mão, a dizer-lhe: «Vamos brindar à sobrevivência?» Jonas agarrou no cálice fictício e bebeu-o de um sorvo, sorriu, olhou ao redor, mirou de novo a mão onde o cálice nunca esteve e, num esforço quase metafísico, pensa em voz alta com clareza. «Suicidar-me? Eu? Eu, Jonas, o missionário de Deus que sobreviveu três dias e outras tantas noites dentro de um grande peixe? Nunca. Quem deve morrer é o xô Zé, o que não tem respeito pelos bons clientes!»

 Ziguezagueando, num estado permanente de ausência de si próprio, olhou para a poça de água que se esgotava por gravidade: «Foges não é? Eu também já tentei fugir de mim, mas quando chegava lá estava eu outra vez».
Enquanto na sua mente se desenrolava um turbilhão de pensamentos em que congeminava a morte do xô Zé, entrou no quarto com dificuldade, aos encontrões, como se as ombreiras tivessem inchado; qual crente convicto, como habitualmente, prostra-se frente à cómoda alta, com quatro gavetões, como se de um altar se tratasse. O tampo estava pejado de objectos que iam de papéis a revistas e jornais, alguns livros, uma caixa de sapatos cheia de medicamentos intactos, um cinzeiro «art déco» em vidro, um relógio de bolso com uma corrente em ouro, um relógio de pulso Cauny, um cachimbo africano, uma sebenta, um lápis, duas maçãs verdes e a fotografia do mãe e do pai. O pai e a mãe morreram ainda novos, ele de sífilis e ela de um edema pulmonar, com diferença de 10 anos um do outro. O resto do quarto estava atulhado de livros desde o chão até ao tecto.

A fotografia do casal estava numa moldura simples, toda em madeira, com uma base onde assentavam dois triângulos decorados com um conjunto de folhas e frutos, desenhados e encrostados numa película fina de estanho. Na ranhura dos triângulos encaixavam-se dois vidros e no meio destes a fotografia. Curiosamente, o pai, que era um homem ríspido, sisudo, aparecia na foto a sépia sorridente; a mãe, que era mulher alegre, muitas vezes contida por imposição, cheia de ternura, surgia com ar sério, quase sofredor. «Mãe, quem me dera ver-te sorrir. Estás zangada comigo?»
A mãe, do lado direito da foto, com a assinatura Lusarte do fotógrafo sobre o fato de saia e casaco, mantinha-se inalterável. Por sua vez, o pai, parecia desenhar um sorriso ainda mais sarcástico. Jonas adormecera com a moldura na mão enquanto cismava na morte do taberneiro: «Mãezinha tenho que o matar!». De cada vez que olhava para a fotografia a mãe parecia mais triste.

Todas as manhãs os vizinhos lhe azucrinavam a cabeça: «Dr. Jonas, o senhor, uma pessoa tão inteligente e a perder-se nessa vida». Ele, indiferente ao que ouvia, respondia-lhe com um sorriso enquanto abria a caixa do correio para ver se já tinha chegado a carta com o subsídio de desemprego. Cumprimentava-os todos delicadamente e dirigia-se para a taberna do xô Zé.
Bom dia amigo Zé, sirva-me uma «mosquinha» para começar bem o dia. Agora não tenho com que lhe pagar, mas daqui a pouco vou levantar o subsídio e faço contas consigo.
Não há problema, vá lá à sua vida, retorquiu o taberneiro
Obrigado, o senhor sempre foi um bom amigo, já agora, sirva-me aí outra «mosquinha» para o caminho.






Um comentário:

  1. Manolo, tal como o «ciganito» não te digo obrigada; digo, quero mais!

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